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O casal está no quarto ainda abafado. Amaram-se pouco antes, e aquela sensação de que o mundo pode acabar agora volta a aparecer em seus corações, junto com um sorriso bobo e o cigarro, no caso dele. Ela, já deitada, inicia a conversa, enquanto ele, na janela do apartamento alugado em que vivem, observa, preocupado, as estrelas.

– Se o mundo acabar mesmo no final do ano, muita gente vai ficar decepcionada. Mamãe pensava em fazer uma plástica acima dos olhos.

– Sua mãe precisa de outros olhos, isso sim. Ela adora ver defeito em tudo.

– Ora, não seja tão implicante. Ela só disse que você poderia ter escolhido uma profissão que desse dinheiro e não que seu trabalho era sem sentido.

– Tanto faz. Às vezes, nem mesmo eu vejo sentido em ser escritor. Se a humanidade acabar, vá lá que daqui um milhão ou bilhão de anos seres de outro planeta nos visitem e ainda encontrem meus escritos. Quem sabe até eles façam uma edição ilustrada dos livros. Agora, se o mundo acabar e não sobrar nada, de que adiantou tanto trabalho?

– E não será assim com todo mundo? Médico, advogado, garota de programa? De que valerá o sangue, o suor e as lágrimas dessa gente toda? Acho que você não deveria se preocupar com isso. Vem, deita aqui comigo e larga esse cigarro horrível.

– Espera só um minuto que acabei de acender outro.

– E não se esquece de abrir mais janela. Ainda está muito abafado pelo que nós dois fizemos antes.

– Pois é isso o que realmente me preocupa: nós dois. Sabe, você é uma cientista nova e bonita, e eu uso bigode porque minha barba não cresce. Além disso, eu tenho idade para ser seu gerente de banco.

Ela, pela primeira vez desde que estão juntos, franze as sobrancelhas de um jeito estranho. Uma para cima, e a outra como se fosse lhe escapar do rosto.

– Mas o que você está dizendo! Que importa a idade agora, se isso nunca antes fora um problema?

– Antes, eu era mais novo. E agora só você é nova. É com um gerente de banco que você quer enfrentar o fim do mundo?

– Você não é gerente de banco.

– Não é essa a questão.

– Olha, querido, não me importa quem vai estar certo no final das contas. Se forem os cientistas, ponto para eles. Se forem os religiosos, quem sabe a gente não discute melhor esse assunto no paraíso. O que me interessa agora é o que temos. Do nosso amor, dos nossos amigos e, mesmo, do nosso apartamento com o aluguel atrasado; é disso que eu quero saber. E eu acho o seu bigode muito charmoso.

Ele apaga o cigarro e deita-se um pouco menos preocupado.

– Amanhã eu vou falar com o gerente para pedir outro empréstimo no banco. Ah, e não comenta nada…

– …com a minha mãe, eu sei.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/12/2012.

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