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Está claro que toda a existência, para nós humildes pagadores de impostos e alguns sonegadores, advém da capacidade infinita de interpretação. Mas que ninguém fique chateado com isso. Temos o polegar e o uísque que nos tornam especiais, por algum motivo que nem mesmo Deus é capaz de explicar. Diante da indagação celestial, como a dizer que não há razões mesmo na racionalidade, resta-nos aceitar a urgência da vida como se fosse um brinde antes da morte. E não adianta parcelar a compra para aproveitar os juros baixos: o que nos espera está garantido por uma venda casada de fatores.

A materialidade de nossos dias está presente tanto nas festas de fim de ano quanto nas partículas quânticas. A diferença é que uma delas está diretamente relacionada ao décimo terceiro salário. Mas como um gado de átomos, continuamos a executar diariamente nossos trabalhos alienantes, porque há ausência de sentido até mesmo ao bater continência. A virtude que almejamos conquistar por estes dias não é muito diferente daquela que outros buscaram no passado. Tudo bem que na Idade Média as coisas ficaram um pouco confusas, mas que seríamos de nós hoje sem os contos de um fado (também chamado “destino”) envolvendo cavaleiros, castelos e uma dama em perigo? Quiçá toda a modernidade tenha surgido sobre sela de um cavalo, ainda que longas cavalgadas possam causar assaduras em regiões bem delicadas.

Com alguma sorte viemos a ter no presente. Às vésperas do Natal, as lojas apenas fornecem embalagens prontas, daí que o presente pareça o mesmo em todos os lugares. Assim também ocorre com o tempo. Por mais que guardemos os minutos e as horas nos pacotes da nossa memória, algum dia ficamos apenas com os vestígios do que já foi verdade. Além disso, a longevidade é quase sempre proporcional àquilo que esquecemos. Mesmo Cristo não era muito de falar do seu passado, sendo sua juventude um período pouco claro para seus fiéis e historiadores, o que nos faz pensar que ele tenha sido um garoto problema, o que, por sinal, seria ainda mais genial em se tratando do filho d’Ele. Se o nazareno não era muito de falar da sua juventude, então nós também temos o direito de apagar certos erros, permitindo que a memória tenha um balanço positivo, diferentemente do que vem acontecendo na economia mundial.

E se o final de ano também é um recomeço, podemos nós dar uma simples volta no quarteirão, experimentando as sensações de ver e viver a singularidade da vida, enquanto deixamos o sedentarismo de lado e cuidamos do nosso corpo como quem cuida daquele desejado presente de Natal.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/12/2012.

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