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– Vou te amar por todo o ano, como fosse possível superar o que nos aconteceu depois de ontem – ele disse, enquanto os fogos da festa de réveillon ainda se faziam ouvir.

– E se forem apenas as taças de champanhe que lhe envolvem os pensamentos, tornando suas palavras assim vazias como as garrafas já abertas?, questionou ela com aquele mesmo sorriso que o fascinara assim que se conheceram, na noite anterior.

– Por certo que jamais faria quaisquer desagrados munido com todo o álcool que corre em meu sangue. Uma flecha de Eros acertou-me em cheio naquela última madrugada do ano que agora jaz. E se teu nome é Afrodite, penso não ser isso uma mera coincidência.

– Meu nome é Edite. E-di-te. Acho que você não deveria ter misturado champanhe com vinho.

– Perdão, perdão se Baco me confunde. Estou terminando um livro sobre deuses e heróis gregos, de onde vem a inspiração primeira. A inspiração é esta mesma que nos emociona ainda hoje, nesta festa de smokings e vestidos longos, com bebida de primeira e pessoas da pior categoria.

– Lembre-se de que nós também estamos aqui.

– Uma exceção a confirmar a regra, evidentemente.

– Seja como for, foi você quem me convidou para ver os fogos de artifício explodirem à beira mar. Começo a me perguntar se deveria mesmo ter aceito um convite assim tão de última hora.

– Não importa a hora, desde que seja a certa. Veja você que comemoramos o ano novo sessenta minutos adiantados por causa do horário de verão e, mesmo assim, a alegria se renova com a mesma intensidade. Sabia que réveillon se origina do verbo francês “réveiller”, que quer dizer “acordar”?

– E daí? Você está insinuando que devemos acordar juntos?

– Não necessariamente, mas meus pensamentos já cogitaram essa hipótese.

– Olha, Armando. Sei que você é um cara bem intencionado, decente até. Mas creio que essa sua paixão à primeira vista seja tão somente uma fraude cerebral, como uma bebida ruim em um belo rótulo vendida por esse Baco aí que você falou. Não quero começar o ano com compromissos tão sérios. O máximo de comprometimento que quero manter é com as minhas dívidas do cartão de crédito, e olha que não são poucas.

– Eu apenas pensei… esperava que você também…

– Por favor, não chore. Depois de ontem, temos que nos concentrar neste instante, rir dos vestidos fora da moda, caçoar das gravatas borboletas mal arrumadas e deixar o ritmo com as ondas do mar que nos baldeiam.

– Acho que estou ficando enjoado com o balanço do barco.

– É melhor deitar um pouco. Temos o ano inteiro para você se recuperar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/01/2013.

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