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Quando eu era criança, lembro-me de algumas preocupações que se faziam presentes sempre que as aulas estavam por começar. Saber qual carteira eu poderia ocupar era, provavelmente, uma angústia primordial.

Para o bem da verdade, sempre preferi sentar próximo às paredes, pelo menos até entrar na faculdade, onde não havia mais lugar marcado. E como a timidez é minha companheira desde pequeno, acreditava que nos cantos havia mais proteção, evitando assim perguntas inesperadas das professoras que escolhiam os alunos aleatoriamente. De fato, não sei se essa técnica funcionava, mas quando se é criança o mais importante é não perder as esperanças de que se está certo.

Ainda na infância, toda sexta-feira era dia de cantar o hino nacional. Por mais que muitos trechos da letra não nos fizessem sentido algum, com um lábaro estrelado e uma flâmula em verde louro desconhecidos, os gritos do refrão saíam com empolgação. Em uníssono, todos os alunos exaltavam em verso a pátria amada Brasil.

Também por essa época, realizávamos anualmente o desfile de 7 de Setembro, dia em que não poderíamos ser tão independentes a ponto de faltar a aula. Seja com o uniforme da escola ou trajados de acordo com os temas escolhidos pelos professores, saíamos à rua com um pouco da disciplina dos quartéis. O regime de exceção acabara anos antes, mas o dever pátrio ainda era uma bandeira a tremular para além dos mastros.

Os pais orgulhosos apareciam nos desfiles para se certificar que as roupas de seus filhos estivessem aprumadas, pois na ausência de generais ou marechais verdadeiros, os olhos disciplinadores não se furtavam em bater continência.

Não posso afirmar se os colégios de hoje continuam com essa tradição pátria, como se as forças armadas plantassem suas primeiras sementinhas nos corações dos infantes. Mas não importa, pois os tempos mudaram e, com eles, as preocupações mais fundamentais. Sexta-feira deve ser um dia de ouvir música pop e o 7 de Setembro, enfim, tornou-se um feriado no qual não é preciso ir ao colégio. E como essa geração não sabe a sorte que tem!

O colégio no qual passei minha infância e, quiçá, alguns dos momentos mais divertidos e intrigantes desta vida já não existe. A estrutura está lá, intacta, mas crianças não correm mais por seus corredores na hora do recreio (ou “intervalo”, quando já estávamos mais crescidos).

E, de uma hora para outra, a gente cresce e vira adulto, sem compreender sentimentalmente a relevância de nossa infância – e como todas aquelas pequenas coisas determinaram o que fizemos depois. Minha timidez que o diga.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 10/01/2013.

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