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Para começo de conversa, ou de leitura, é necessário imaginar um leitor gentil. Não estamos cá em busca de um cavalheiro mentiroso que se furta a opinar em sinal de galanteio ou elegância. Fora cavalheiros!, pelo menos no que compete à literatura. Mas como a própria noção de literatura é ampla, vamos nos concentrar em três dos seus gêneros mais conhecidos: o romance, o conto e a crônica – sempre acompanhados de seus leitores gentis.

Saborear uma história romanceada, seja esta de amor, aventura ou aleatória, requer do leitor um tantinho de paciência e outro bocado de sapiência, tendo por aliado um inevitável dicionário. Felizmente, a língua – a nossa língua – possui quase tantas palavras quanto são os candidatos em véspera de eleição, com a vantagem que sabemos para que servem as palavras. Abrir a página 1 de um romance significa criar um compromisso, que até pode ser quebrado caso a leitura seja modorrenta ou lhe provoque náuseas. Vide a bula: livros ruins também fazem mal à saúde. Jamais aceite uma dor de cabeça por companheira de um romance; tampouco prossiga num livro que o faça dormir – para isso existe a televisão. O romance padece de ser degustado longa e tranquilamente, sem atribulações. Deixe os riscos para o espião que sabe mais do que deve, ou para esposa que se apaixona pelo novo morador da cidade, ou para o ladrão que rouba dos ricos para…

Já o conto traz consigo a alegria e a disciplina das visitas rápidas. Não é tão curto a ponto de esquecer o que dizer e nem tão longo de modo a atrapalhar as outras atividades da casa, como dormir depois do almoço, por exemplo. O contista conta duplamente com a gentileza do leitor em sua forma mais elementar: o respeito pela ideia. Afinal, existem brilhantes contos que se concentram numa simples sacada, daquelas que, ao lermos, indagamo-nos: por que eu não pensei nisso antes? E, ainda mais do que no romance, a primeira e a última frase dizem tanto sobre o autor e a obra que é como se aquele pedaço do meio (o desenvolvimento da história) fosse apenas um exercício de contenção – mas é claro que é bem mais do que isso.

Por último, mas não menos importante, eis a crônica. Normalmente mais enxuta que o conto, este belo exemplar da literatura que floresceu nos jornais não quer praticamente nada em troca do gentil leitor. Sua atenção, entre notícias quase sempre sobre problemas sociais, já é gentileza em demasia, porque o cronista e o leitor da crônica estão do mesmo lado da literatura: afinal, o cronista também é um leitor, gentil ou não.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/01/2013.

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