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Quando foi que entramos nessa curva? Em que momento a visão nos ficou turva? Tantos crimes, tantas vidas ceifadas. O fogo invade os ônibus de madrugada. A criança que chora. A dor materna da senhora. Um pai que não chega ao lar. Mais um filho para velar. Por que tanta violência na velha Desterro? Afinal, quem assumirá este erro? Perguntam-se usuários de ônibus. São apenas cidadãos comuns.

A vingança entre criminosos. Como são teimosos! Volta e meia estes deixam recados. A sociedade pagando seus pecados. Existe outra opção que não seja o confronto? Vamos reavaliar a segurança ponto a ponto. Políticas públicas e outras melhorias pontuais. Ônibus que saem escoltados dos terminais.

Do presídio, criminosos coordenam como se em liberdade estivessem. E da liberdade os inocentes é que ficam sem. A necessidade de reformas é urgente. Qualquer cidade é feita de gente. Não importam asfaltos, elevados ou passarelas. Precisamos de sorrisos, mesmo dos banguelas. De Canasvieiras ao Norte, chegando ao Sul da Tapera: os moradores cansaram da longa espera. Nada acontece, nenhuma transformação. Sequer permanecem os carros de mutação. O ônibus arde. O cidadão perde.

Pensando bem, não é muito o que desejam. Somente seus direitos, quaisquer que sejam. Deixemos a penitência aos devotos. Façamos valer nossos votos. A urna eleitoral não pode ser também a funerária. Não estamos mais nos tempos das capitanias hereditárias. Não restam dúvidas, o sistema é falho. Este vampiro é imune ao alho. E se a justiça tem a sorte da cegueira, que pena. Nem sempre enxerga a pessoa certa cumprir pena.

“Não se herda o crime como se herdam terras”. Shakespeare assim provocou feito outros caras. E assim o é se lhe parece. A fé só existe na prece. Os desvios do passado não deveriam justificar o presente. É impossível sentir próximo o que está ausente. Adiantarão passeatas e marchas pela paz? Que valerá isso tudo ao corpo que agora jaz? Discursos já estão em curso há muitas gerações. E poucas vezes as falas levam às ações. Todos são especialistas em oratória; mas quantos destes chegam de fato à vitória?

Sejamos francos, eu e você: essa crônica não é uma solução. Não sou um mágico para escrever o amor numa poção. Porque de amor é que precisamos, nós e eles. Já cantavam nos anos sessenta os Beatles. Mas no século vinte e um os problemas são ainda maiores. E são poucos emplastros para muitas dores.

Está decidido: façamos os cálculos e vamos prestar conta. Florianópolis cansou de fugir de si mesma qual uma barata tonta.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/02/2013.

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