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Por mais que pareça estranho, aqueles dois amigos mal se viam e se entendiam muito bem. Não era por opção que se encontravam ocasionalmente para conversar; apenas acontecia. Desta vez, encontraram-se no terminal rodoviário, à espera de um meio que justificasse o fim de tudo: deixar a Ilha.

Os ônibus de ambos – iam para destinos distintos – estavam um pouco atrasados, o que lhes permitiu uma nova conversa, ainda que com alguma pressa.

– Então, viagem de negócios?

– Mais ou menos.

– Volta?

– Depende, justamente, dos negócios. Não é que eu esteja infeliz, mas ando um tanto quanto desorientado com tudo o que vem acontecendo. A cidade parece cada dia mais distante de mim.

– Entendo. Já eu só estou saindo por alguns dias. Tenho de visitar minha mãe. Ela está fazendo 99 anos, acredita? Do jeito que eu fumo, não sei se chego aos 70.

– E está com quantos?

– 69.

Eles sorriem e logo chega um novo ônibus, mas ainda não é nenhum que os levará dali. Um deles pensa em falar de política, mas desiste antes mesmo de começar. Já o outro questiona sobre o clima, e a conversa é retomada.

– Tenho sentido falta mesmo é do Vento Sul. Ainda bem que mamãe mora na Serra, e lá eu posso esfriar um pouco a cabeça.

– É por isso mesmo que estou tentando começar de novo.

– Profissionalmente?

– Também. Pessoas da nossa idade ganharam outro sentido de uns tempos para cá. É tanto remédio para o corpo que o resto ficou de lado. Logo todos chegarão à idade da sua mãe, mas estarão tão apáticos que vão ser consumidos sem se dar conta disso. Não é o caso de sua mãe, claro. Mas é uma tendência, principalmente aqui na Ilha.

– Então, de alguma maneira, isso virou um desterro de memórias?

– Desterro? Essa é boa.

– Quem dera, meu amigo. Quem dera.

Agora sim. Dois ônibus entram simultaneamente na rodoviária. Bingo! São os dois veículos esperados – porque, afinal, todas as histórias da Ilha sempre giram ao redor da mobilidade urbana! Eles caminham lado a lado carregando as sua malas/memórias, como os dois últimos habitantes de uma cidade que será inundada por uma represa ou qualquer coisa assim.

– Sei que é meio tarde para perguntar, mas você tem certeza que quer começar tudo de novo? Nenhum receio?

– Na verdade, tenho muitos medos, mas não me importo mais. Chegou a vez de passar a cidade para os outros. Definitivamente.

– Bem. Só posso lhe desejar boa sorte.

– Obrigado. E mande meus parabéns para sua mãe.

– Pode deixar. Falando nisso, quase me esqueci: tenho de passar correndo ali na loja para levar uma lembrança da Ilha para a mamãe. Ela adora lembranças.

– Eu estou levando umas também.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/02/2013.

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