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Ainda não aconteceu, mas não quer dizer que não acontecerá. Lá pelo final do século XXI, a teoria da relatividade sucumbirá ante o poder dos astros e as ciências entrarão em extinção. Autores de livros de auto-ajuda estarão nas escolas para mostrar o óbvio que ninguém consegue ver. E, claro, a astrologia guiará os passos de cada ser humano, porque o cosmo é muito mais divertido sem a física a lhe perturbar.

Como consequência, o jovem Apolo consulta seu horóscopo para visualizar as chances que tem em seu encontro naquela tarde quente de domingo. E, sob a benção de seu signo, ele parte numa daquelas motos elétricas – o único veículo permitido nas grandes cidades após o fim do petróleo.

O encontro ocorre num restaurante tipicamente mediterrâneo. E, entre azuis e brancos, Dóris chega carregando a pasta da faculdade de Relações Amorosas, que veio a substituir o antigo curso de Relações Internacionais. E ela é uma aluna excepcional, dizem seus colegas e alguns ex-namorados.

Apolo: – Fiquei surpreso com o seu convite. Não achei que você ainda fosse se lembrar de mim quando nadamos juntos nos jogos da Universidade, principalmente por eu ter finalizado a prova em último.

Dóris: – Na verdade, eu estava mesmo era surpresa com o seu jeito despojado, não ligando para nada além do prazer daquele momento.

Apolo: – Acho que os astros devem passar o dia em alto astral, por isso não vejo como podemos viver aqui sempre em dramas constantes. Se eu pudesse, não mudava uma só vírgula na nossa história até aqui, porque só conquistei alegrias.

Dóris: – Mas nós mal nos conhecemos!

Apolo: – Por isso mesmo. Confio na primeira impressão. E também no primeiro beijo.

Dóris: – Falando nisso, acho que está na hora…

Alguns anos mais tarde, Apolo chegou esbaforido em casa. Dóris estava dormindo, mas logo acordou com o barulho dele na biblioteca. Ele revirava gavetas à procura de um raro exemplar de “Astrólogos da hora certa”, livro que definia as regras universais da raça humana naquele novo tempo.

Dóris: – O que foi que aconteceu?

Apolo: – Acabou. Os cientistas venceram. Eles acharam uma partícula de anti-matéria que comprova tudo o que existia na época de um tal de Einstein. Mas deve haver algo aqui no livro sobre o que pode acontecer se…

Dóris: – Não adianta. Se já não podemos crer nos astros, como poderemos continuar juntos?

Apolo: – Não precisa ser o fim. Aliás, esta pode ser a oportunidade que esperávamos para ter o nosso filho.

Talvez Apolo estivesse certo; talvez não. O fato é que Dóris tinha muitos aspectos a considerar. A felicidade, agora, era uma questão bastante relativa.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/03/2013.

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