Tags

, , , , ,


Sempre gostei de jipe. Não sei explicar exatamente a razão, mas desconfio que os motivos estejam lá na infância, com aqueles brinquedos de plástico da década de 1980. Um jipe é metade carro popular e metade caminhonete high society. É alto a partir do chão, mas baixo no conjunto da obra. Ótimo para terrenos irregulares e cheio de estilo nas vias urbanas, esburacadas ou não. Enfim, um veículo ideal para a Ilha, porque suas características são também robustas e meio deslocadas de todo o resto.

Não lembro se tive muitas bicicletas ao longo de minha infância, mas andava sobremaneira com elas. Ali no Parque São Jorge, onde morei meus primeiros anos, as ruas em paralelepípedo eram aliadas das nossas incursões aventureiras – minhas e da turma do bairro. Naquele tempo, os ainda muitos terrenos baldios e morros desocupados nos convidavam à exploração. No Parque ou nos arredores (Santa Mônica, Itacorubi, Córrego Grande), os espaços para ciclistas nunca foram dos melhores, e contávamos apenas com o pouco movimento nas vias secundárias. Enfim, a Ilha era bem menor.

Cresci, não duvidem. Passei dos trinta anos, já tive um carro roubado e, às vezes, saio de São José, onde moro, e sigo para Florianópolis. Ao usar o carro, em cada viagem intermunicipal imagino o tempo que será perdido nas filas do trânsito. Não, ainda não tenho o meu sonhado jipe e há anos não possuo bicicleta. Nalgumas ocasiões, vou e volto da Ilha utilizando o transporte coletivo e é, então, quando observo angustiado o quanto a cidade cresce sem se preocupar com sua mobilidade.

Dia destes um pessoal saiu às ruas pedalando com pouca ou nenhuma roupa para protestar contra a falta de oportunidades de um translado seguro sobre suas magrelas. E isso me parece bastante justo. Florianópolis, justamente por ser uma Ilha na qual o concreto foi recortando a natureza, deveria ser a capital brasileira da bicicleta. O automóvel é uma invenção bacana, mesmo o jipe que tanto almejo, mas a bicicleta é uma ideia brilhante porque traz consigo tudo o que é moderno. Uma estrutura simples sustenta duas rodas que impulsionam o ser humano para frente. Isto é o progresso sem ofender ninguém.

Com mais algumas pedaladas, teremos a chance de construir um caminho solidário, sem idiotas nervosos que usam carros como armas e sem malucos irresponsáveis com álcool na cabeça passando por cima sobre de ciclistas. E este me parece ser um sonho tão ou mais simpático quanto ter um jipe. Enquanto isso, talvez eu compre uma bicicleta.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/03/2013.

Anúncios