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Esta é uma história de detetives, mas não envolve nenhum tipo de crime ou mistério. É pura e simplesmente um encontro entre dois gênios da mesma arte de Sherlock Holmes e C. Auguste Dupin.

Aconteceu em Paris, a cidade que além de ser uma festa é sempre um bom cenário para qualquer história. Ali mesmo, entre uma ou outra esquina de Montmartre, o famoso bairro boêmio da Cidade Luz, ficava uma pequena taberna. O local era esfumaçado, é claro, mas só para o enredo ter aquele clima noir. Foi ao pedir a segunda taça de um cabernet 1935 que Domingos Tertuliano Tive, o Detetive de Florianópolis, percebeu sentado à mesa do bar um velho amigo. Ajeitou seu anel de platina no dedo mindinho, aquele mesmo que conserva a unha comprida feito uma lâmina, colocou o chapéu na cabeça e levantou-se de encontro ao também Detetive Sam Spade.

– Fiquei em dúvida se era mesmo você, mas quando vi esta estátua de um falcão maltês sobre a mesa não perdi tempo em vir lhe cumprimentar, revelou D. T. Tive.

– Mas que surpresa! Há tempos que não conversávamos, desde aquela ajuda que você me pediu no caso dos dólares de Chapecó, lembrou Spade.

Evidentemente, a conversa se deu em francês, único idioma que os dois conheciam e que aprenderam num curso por correspondência, mas aqui traduzimos para ficar mais claro.

– Pois não lhe contei das novas: sou um homem casado.

– Muito bom, Tive. Diria mais: isto é piramidal!

– Exato, é o mesmo que diz minha secretária… quer dizer, minha mulher Ivete. Viemos para cá em lua de mal, gastar um pouco do que eu ganhei quando solucionei o caso de Chapecó. Aliás, como lucrei com sua ajuda naquela oportunidade, deixe-me pagar sua próxima bebida, apesar de que você parece já ter bebido em demasia.

– É verdade. Não consigo esquecer aquela mulher. Brigid O’Shaughnessy. Ela e este maldito falcão levaram meu sócio Archer à morte.

– E presumo que ele nunca mais saiu desse lugar.

– Exato, Tive. Você é sempre preciso. Vai direto ao assunto como uma crônica de jornal. Sabe, acho que somos personagens de nossas próprias histórias, mesmo que isso seja óbvio ou oblíquo.

– Por isso deixou São Francisco?

– Sim. Deixamos.

– Ah, então veio acompanhado. Uma mulher? Não vá me dizer que também se apaixonou por sua secretária?

– Não, nada disso. Viemos eu e esta relíquia macabra em forma de falcão que a polícia me deixou guardar como souvenir.

– É meu amigo, você precisa de mais bebida. Garçom, por favor, traga outra taça de alguma substância de que são feitos os sonhos.

Ivete teve de buscar Tive às seis da manhã na Taberna, porque ela ainda queria visitar o Louvre antes de voltar para Florianópolis.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/04/2013.

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