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A vida e a morte podem ter explicações científicas, mas estas não são suficientes. De tudo o que aprendemos enquanto vivemos, certamente nosso conhecimento é e será sempre limitado. O tempo impõe limites. O nosso corpo impõe limites. Mas a natureza do universo, muito antes de nós, dá-nos as dicas que jamais seguimos. A criação é um ato doloroso e sem fim. Mesmo a morte pode ser vista como uma re-criação, já que só causa efeito para os que continuam vivos. De alguma forma, sobreviver é um ato ingrato que presenciamos enquanto outros padecem ao nosso redor. Imagine um casal que viveu uma vida inteira unido e, de repente, um deles se vê sozinho num mundo que antes era composto. Não é fácil. Ninguém compreende quando um pai vê sua filha deixar a vida, ou um filho não voltar a abraçar sua mãe. Mas essas dores acontecem com todo mundo, do escravo ao faraó. Viver é uma experiência sem igual, porque é especial para cada indivíduo. A singularidade do nascimento é uma janela que jamais tinha sido aberta anteriormente. Quão extraordinário é perceber os mesmos efeitos da matéria em toda gente, do seu vizinho ao herói histórico. E como são frágeis esses nossos semelhantes! Derrubados por uma doença sem cura, ou um acidente fatal, ou por um crime banal. E, perplexos, continuamos sem quaisquer explicações que façam sentido ou que, ao menos, diminuam o sofrimento. É cruel que uns sejam escolhidos e outros preteridos. Que alento sobrará para nós que não a conformidade forçada? Como superar uma saudade que nunca se desapega ou uma lembrança que insiste em permanecer? De novo, não há respostas. A gente faz de conta que entende disso, e finge passar por cima como se a oportunidade de uma fuga de si mesmo estivesse ao nosso alcance. Mas nunca esteve. E lá no fundo, aquela ilusão que criamos para seguir em frente torna a incomodar. As lágrimas cumprem bem essa função de lavar um pouco as coisas, enxaguando as sutilezas imperceptíveis – invisíveis até mesmo se olharmos no microscópio. E quanto a nós mesmos? Não procuramos pensar como será. Se o fizermos, corremos o risco viver em função do medo, o que não é uma opção agradável. E tudo o que fazemos é, exclusivamente, deixar o mundo um lugar mais agradável para nós e para os nossos. Claro que muito dá errado pelo caminho, mas sou dos que creem numa pureza inicial que pode ou não desvanecer com o tempo. E uma visita no tempo é o que podemos fazer de melhor. Apesar dos contrários, a vida é a melhor chance que teremos em qualquer história. Estamos aqui pelos outros.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/05/2013.

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