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Até que o otimismo é convenientemente necessário, mas não sejamos ingênuos como a Branca de Neve que mordeu a maçã sem nem mesmo lavá-la. A situação geral é razoável, para ser alguma medida justo e outra porção pacífico. Nossos índices de desenvolvimento melhoraram nos últimos anos, mas em 1500 o clima era bem mais festivo – os indígenas que o digam.

O país já esteve à beira do colapso, mas foi salvo por um coração mecânico e a invenção de um plano real. Foi mais ou menos quando todos estavam sonhando com a democracia que a realidade os pegou desprevenidos. Os caras-pintadas deixaram as ruas e agora acessam a tudo pela internet. Em tempos de redes sociais, “compartilhar” já não é mais o que era. Curtiu?

É fato que poderíamos imaginar este cenário desde o final dos governos militares. Mesmo a Anistia Política de 1979 foi um capricho que ainda vai demorar a arrefecer. Porque todos desejam um Estado de Direito, mas se esquecem dos Direitos do Estado. E eis que o Presidente do Senado, com uma tripa de denúncias nas costas, vem a assumir o país interinamente.

O jogo político-partidário já teve lá a sua graça, mas piada velha não agrada nem plateia amiga. O sorriso amarelo dos eleitos não esconde a falta de horizonte. A economia perdeu o rumo ainda em sua fase embrionária, quando Collor e os seus asseclas abriram o mercado como quem abre uma garrafa de champagne: primeiro, o estouro de alegria; depois, a embriaguez. Mas a bebedeira não é exclusividade nossa. Vejam aí o Euro, carro-chefe monetário do Velho Continente, precisando de reparos nalgum martelinho de ouro. Mesmo os Estados Unidos foram enganados por sua própria fome de consumo, com as finanças em declínio e a obesidade em ascendência. E a China? Exceção que confirma a regra, ainda que outra bolha econômica seja uma tendência inevitável.

Fundamental é perceber a liberdade imoral dessas prevaricações sustentáveis. Aqueles que elogiam os avanços também fecham os olhos para as falhas do roteiro. E mesmo que a história possa ser escrita mais de uma vez, os autores quase sempre são coniventes com a situação, seja ela qual for. Não, isto não é uma crítica maldosa, mas sim um comentário pouco apaixonado por esta época dita contemporânea. Vamos dar tempo ao tempo, tendo ou não um rolex no pulso. Esta é a liberdade que o capital nos (im)possibilita: viver é à vista, não tem como parcelar.

E os que esperam uma recompensa? Ou apenas uma resposta? Talvez ela venha em forma de uma maçã verde, esperando amadurecer junto com o Brasil. Ao vencedor, a primeira mordida.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/05/2013.

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