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– Não sei com que carro devo ir à festa.

A preocupação de Breno é legítima. Existem muitas camadas na superfície do universo, e o jovem flâneur mora naquela mais extrema, numa casa com duas piscinas. Os pais se dão por satisfeitos com a faculdade de direito que o filho cursa há sete anos. Entre uma festa e outra, ele consegue se sair relativamente bem nas aulas, o problema é que as muitas faltas impedem sua aprovação. Aos 27 anos, essa constante presença na universidade parece não o incomodar. Afinal, a juventude é uma ilusão que só acaba com o tempo e com a falta de dinheiro, mas ambas as situações parecem não ter fim aos seus olhos.

Decide-se pelo automóvel esportivo e deixa a caminhonete na garagem, ao lado dos outros carros da família. Seu destino é numa área afastada da cidade, próxima ao mar e recheada de condomínios fechados. A segurança do local é apenas uma fachada para a exclusão, pois dentro dos muros das mansões algumas dezenas de delitos são cometidos por uma juventude em franca corrupção. Essa turma não tem nostalgia e anseia por excessos e por prazeres e por mais do mesmo.

Tão logo entra na mansão de um conhecido de um amigo, Amanda lhe reconhece e oferece alguma bebida forte: muito teor alcoólico com gosto adocicado. “É energético?”, Breno pergunta. E ela revela: “Também. Mas não me lembro os outros ingredientes”. Eles sorriem e se beijam e encontram outros conhecidos. Não interessa saber quem é o anfitrião e é bem provável que este também esteja pouco preocupado em conhecer a todos. Uma garota, com um rosto quase infantil, entrega umas pílulas para Amanda e recebe um afago e duas notas altas de dinheiro com cheiro de novo. Para eles, o prazer é um contrato social pago com o dinheiro dos pais.

Breno deixa sua turma de conhecidos e logo se vê diante de duas garotas dançando juntas. Ele cochicha alguma coisa em seus ouvidos e os três somem por alguns minutos. Amanda toma outra pílula e mantém o mesmo ritmo de seu balanço. A música eletrônica e as pílulas e as bebidas que os garçons trazem fazem a garota voar sem sair do chão. Breno volta com a gravata frouxa e os cabelos desalinhados.

A manhã bate à porta da festa. Amanda diz que não precisa de carona e vai embora com aquela garota de rosto quase infantil. Breno se irrita quando o motorista da festa lhe traz o carro com um arranhão na porta. Acelera o veículo e segue para casa.

Tudo aconteceu como da última vez e em seu celular, uma mensagem de Amanda revela o local da festa seguinte. Breno deverá ir com a caminhonete, já que o esportivo estará na oficina para remover o arranhão.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 13/06/2013.

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