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Acabou aquele tempo da maldade que a gente nem tinha nascido, como na versão de João e Maria do Chico Buarque. Parece-me necessário falar de crianças em dias como hoje. Olha aí os infantes longe das infantarias militares, mais perto de casa, mesmo com as famílias padecendo daquele velho medo do porvir. Podemos, juntos, ensaiar esta valsinha à moda clássica, revivendo um pensamento imortal sobre o fim do faz de conta. O momento é propício para brincadeiras de roda e outras pequenas grandes diversões. Numa marcha cheia de ginga, a turma pula emocionada porque acredita em qualquer coisa simples. E o discurso pode até não ser muito diferente do que era, mas a vida devolve o que nos é de direito, parecendo-nos justas ou não todas estas perdas e danos. Nossos planos, porém, adequaram-se às versões mais jovens de nós mesmos; uma viagem no tempo em plano sentimental, com pouco dinheiro e duas ou três doses de paixão. Maria e João podem ser vizinhos gentis admirando as flores de nosso jardim, porque às vezes é preciso não chorar mesmo com a beleza excessiva e essencial. Não, esta não é uma fábula sobre a revolução. Sim, pode ser uma história de amor porque escrita sob a pena de corações inspirados. E se você não ouvir as respostas para as dúvidas de antes, tudo bem. Estes contos de hoje não precisam da mesma moral como aquelas tradicionais dos Irmãos Grimm. A felicidade pode ficar, mesmo sem motivos aparentes. E a insistência é a benção dos que não se calam. Alguns, inevitavelmente, ficarão alarmados porque pensavam que o tempo iria parar por eles. Mas a gente faz o contrário, seja por ardor juvenil ou por uma condição experiente. E a rua é, evidentemente, o local escolhido. Todo mundo pode e deve se encontrar nas ruas. Uns falam que a rua é arquibancada, outros que é palco. Acho que está mais para um jardim de concreto, pois é o melhor lugar para plantar ideias e colher doces frutos. E esta é a estação da colheita, não há mais dúvidas. João e Maria percorrem as vias com cestos cheios. É tudo de graça. E tudo tem graça. E a gente ri. Esta euforia vem abraçada ao comprometimento dos doadores de tempo. A gente é cúmplice do dia seguinte, sempre maior que o anterior. Também entendi o acordo estabelecido entre os irmãos: Maria e João seguiriam brincando unidos, estando próximos ou não. O contrato que firmamos é selado com abraço longo, a tempo de preservar o melhor de nossa história. E que seja logo, antes que o amor acabe e os chatos mudem o final do filme.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/06/2013.

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