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O escritor Machado de Assis mantém um relacionamento harmonioso e duradouro com sua companheira Carolina. Homem bem relacionado, sempre esteve envolvido com cargos públicos, sem nunca deixar de lado a sua verve literária. Tem cabelos grisalhos, não muito alto, franzino, faz uso de óculos corretivos, possui uma barba curta quase branca e sempre se apresenta muito bem vestido, de posse de um indefectível guarda-chuva.

Transparece aquela maturidade que somente o tempo e a vida podem proporcionar. É um sujeito tipicamente urbano, sorrindo do romantismo com aquela sua peculiar ironia cínica. Tem um ar cansado, mas sempre atento. Seu envolvimento com as esferas governamentais há décadas se dá muito mais por motivos financeiros do que por objetivos ideológicos.

E escreve. Contos, romances, crônicas, peças teatrais… Irrequieto, também participa da origem da Academia Brasileira de Letras, da qual se torna o Presidente. Em seus textos, o Rio de Janeiro é o início e o fim, sendo um apaixonado por sua cidade, além de arguto observador do cotidiano.

Carolina, por sua vez, é a fonte inesgotável de confiança e afeto do autor. Nascida em Portugal, veio morar em definitivo no Brasil e, quando contava com mais de trinta anos, casou-se com Machado de Assis. Carolina é a descrição sincera de mulher dedicada. Sempre presente, teve grande participação na formação literária do marido.

Ainda que discreta, Carolina é o suporte de Machado. Ao lado do marido, leva uma vida pacata, dedicada ao lar. Mulher extremamente forte, segue fiel aos seus valores mais antigos. Assim como Machado, tem paixão pelas letras. Costuma passar as tardes de domingo lendo em sua cadeira de balanço.

Do alto de seu apartamento, Carolina observa um estranho movimento nas ruas. Quando uma multidão de pessoas chega à frente de seu prédio, levanta-se da cadeira de balanço e vai até o escritório-biblioteca chamar o marido.

– Venha ver, querido. Um daqueles momentos que os livros farão questão de reescrever conforme a época.

Machado para a leitura de uma edição das obras completas de Shakespeare e segue ao lado de sua esposa rumo à sacada. Lá embaixo, dezenas de milhares de pessoas protestam contra todo tipo de opressão. Eles cantam o hino nacional, convidam os moradores dos edifícios para descer às ruas e acreditam em mudanças.

– O que será que eles querem?

– Uma relação como a nossa, eu acho; mas com o Estado, comenta o escritor antes de voltar à leitura de antes.

– Você está sendo irônico?, indaga Carolina.

Mas Machado de Assis já está longe e, devido à idade, não escuta bem.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/06/2013.

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