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Desde que o mundo é mundo, a realidade estoura como bolhas de sabão. Os sistemas que aparecem com o correr do tempo acabam por advogar em causa própria e, posteriormente, tornam-se seus próprios adversários. É um movimento delicado este o das pessoas. Talvez por isso, ninguém se dê conta de como frequentemente viramos o jogo. Perdemos algumas batalhas, é bem verdade; mas decepções também são elementos de qualquer história. Uma, duas vezes falhamos. E continuamos, mesmo assim.

Você para no posto de combustível e, além de abastecer, pede que que o frentista olhe a água e o óleo do carro. Trivial, mas nunca se deu conta que não tem a menor ideia de como estas substâncias realmente atuam na engenharia de seu veículo. É claro, você diz, que sem eles o motor estraga. Mas como? E por quê? Na maioria das vezes, não importa saber. Ou, ao que parece, não é necessário. Eu, por exemplo, prefiro decifrar Shakespeare do que compreender a embreagem de um automóvel. O fato é que a gente cede à tecnologia. E a tecnologia é um sistema. E sistemas estouram.

A divulgação de dados dos serviços de inteligência do Governo Estadunidense pelo ex-técnico da CIA, Edward Snowden, é a explosão de uma bolhinha neste universo tecnológico. Snowden lhe avisa que seus e-mails, telefonemas e afins são monitorados, mas você vai continuar utilizando-os da mesma maneira. Talvez fique mais cuidadoso por alguns meses, evitando teclar bobagens no Facebook ou no Twitter, mas logo a neura acaba. Snowden pede asilo, e você uma resposta das autoridades. Mas ela não virá, pelo menos não da forma que você imagina.

A realidade, virtual ou não, é que já entregamos nossa privacidade há séculos. Viver em sociedade é compartilhar sua intimidade de alguma maneira. Com a internet, essa exibição ganha menos obstáculos. E também fica mais fácil para explorar. Lembre que hackers (os piratas da internet) já conseguiram tirar do ar a página do FBI em represália ao fechamento do Megaupload, um dos maiores sites de compartilhamento de dados que o mundo já conheceu. O jogo vira, você sabe.

O empoderamento do espaço público acontece por diversos fatores. De almas caridosas aos governos das super-potências, todos contribuem, querendo ou não, para o fim das fronteiras. Pena que a longa caminhada até lá seja tão dolorosa e repleta de passos para trás. As tecnologias sociais estão levando as pessoas às ruas, discutindo o trajeto definido pelos governos. Mais uma bolha que estourou.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/07/2013.

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