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A revista de literatura trazia um anúncio simples: Desejo me corresponder com amigos das palavras. Abaixo, escrito o endereço e o nome da remetente, uma garota que vivia bem ali no ponto em que os hemisférios se completam – o paralelo perfeito!

Longe de lá, mas muito distante mesmo, o rapaz quis escapar da forte neve que caía e entrou numa banca de revistas. Era pequena, mas na medida certa para evitar o frio das ruas. Passou os olhos nas prateleiras, tirou um ou dois exemplares de quadrinhos em liquidação e, por fim, confrontou-se voluntaria e inesperadamente com a revista de literatura. Juntou as moedas, passou no caixa, pegou o ônibus, jantou e leu as matérias, crônicas, resenhas e afins numa só levada. Já era quase de manhã quando terminou, mas não se sentia cansado. Pelo contrário, estava ligeiramente eufórico, na medida em que é possível ficar assim quando a temperatura baixa dos 5 graus negativos. Queria compartilhar essa euforia, mas seus pais e irmãos ainda estavam dormindo.

Qual não foi sua alegria quando, ao se espreguiçar, a revista caiu da cama e ficou com uma página entreaberta. A princípio, zangou-se por ter amassado o papel que custara muitas de suas moedas. Depois, percebeu que a página semi-danificada era justamente a única que não lera: a seção de cartas dos leitores.

Leu algumas críticas divertidas como aquela afirmando que as páginas tinham muito texto e poucas ilustrações! Mas uma, em especial, chamou-lhe a atenção. “Desejo me corresponder com amigos das palavras”. Conciso, objetivo e verdadeiro, como todo bom amigo ou boa amiga deveria ser. Puxou o papel pautado da mochila escolar e lhe escreveu.

Na semana seguinte, chegava a resposta de sua primeira correspondente. Primeira mesmo. Até aquele momento, jamais se dera conta que nunca enviara carta alguma para outrem. Sim, postara um ou outro envelope no correio, mas todos eram por questões burocráticas e formais. Desta vez, a diferença mais importante não estava no conteúdo, mas sim no destinatário. Ou, para não faltar com a verdade, destinatária. Ansioso, abriu a carta com vontade. Quase rasgou o manuscrito, mas apenas destruíra a embalagem. E ela gostara das animadas palavras dele.

Por anos e anos, trocaram cartas e até mesmo pequenos objetos pessoais. Ele enviara duas moedas estrangeiras que faziam parte de sua coleção pessoal. Ela retribuíra a gentileza com uma miniatura do seu santo de devoção.

Um dia… cessaram as palavras. O mundo aconteceu e um dos dois não estava próximo o bastante para corresponder às expectativas.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/07/2013.

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