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Sob as cobertas, assistia a um velho filme de mistério e terror daqueles realizados pela produtora Hammer.  Terminou por dormir em algum momento entre a descoberta do crime e a punição do vilão.

Mais tarde, uma luz forte o despertou pela metade. Não, não era a televisão que já estava programada a se desligar após o filme. A luz alva era alguma coisa mágica, posicionada sobre a poltrona que sua mulher tanto gostava. Brilhante que só ela, a luz acabou por se definir nas curvas de uma figura feminina. Uma mulher desconhecida, mas de voz agradável e familiar.

“Encontre o sangue”, disse a luz-mulher. “Sempre às sextas-feiras”. “Seu aniversário”. “Antes da meia-noite”. “Quarto 13 de um motel”. “Se não fizer isso, as coisas sairão do controle”. Foram as frases que conseguiu compreender, mesmo estando ainda grogue do sono incompleto e confundido pelo remédio que tomava para dormir desde que a mulher deixara a vida. E, ainda por cima, assistira aquele terrível filme que lhe provocara estranhas sensações.

Quando voltou a dormir, sonhou que recebera a visita de três fantasmas, sendo o primeiro do passado, o segundo do presente e o terceiro do futuro. Mas era só porque havia lido Conto de Natal recentemente, e o repentino acontecimento misturara as palavras de Charles Dickens com sua própria experiência extra-sensorial.

Qual seja a verdade, acordou na manhã seguinte e entendeu que precisava realizar uma tarefa. Sim, teria de ir a todos os motéis da região verificar o quarto 13 para evitar um acontecimento drástico até o dia de seu aniversário.

“A luz falou de sangue e que seu eu não realizar essa tarefa até o meu aniversário, as coisas sairão do controle”, disse para si mesmo na manhã da primeira sexta-feira após a visita da aparição noturna. Enquanto se dirigia ao motel mais próximo de sua casa, pensara que a luz talvez o estivesse avisando sobre um assassinato, no qual muito sangue seria derramado. Pediu o quarto 12 e esperou que ocupassem o 13, mas o mesmo permaneceu vazio a noite inteira.

Na semana seguinte, executou os mesmos procedimentos, mas dessa vez em outro motel. Duas, três semanas depois e nada de crime. Já não conhecia muitos motéis na região. E faltava apenas uma semana para seu aniversário. Consultou uma taróloga para interpretar seu sonho, mas desistiu quando descobriu que esta era a mesma psiquiatra que realizara sua terapia de casal.

E foi assim que naquela sexta-feira, bem no dia do seu aniversário, exausto de tanto procurar pelo desconhecido, foi ao motel que sempre ia com sua mulher. Chegou um pouco antes da meia noite, e não viu quando sua filha entrou com o namorado no quarto 13. Quando olhou para o relógio e viu que já estava no dia seguinte, bateu com força à porta do quarto ao lado e encontrou o namorado de sua filha vestido apenas com um roupão sem entender o motivo daquele alvoroço. Logo, sua filha, com os cabelos molhados e também de roupão, apareceu na sala e tudo fez sentido.

A luz que lhe aparecera era sua mulher, avisando que deveria ir ao quarto 13 do “motel de sempre” encontrar sua filha, “sangue de seu sangue”, antes de meia noite na “sexta-feira de seu aniversário”. Mas com o remédio, o filme e tudo o mais, ele compreendera tudo errado.

Sua filha engravidou e, 9 meses depois, as coisas saíram do controle.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 01/08/2013.

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