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O cheiro da noite está em todos os lugares. Sentado na cama, o jovem escritor vê sua imagem refletida no espelho: ainda é o mesmo, mas pode ser também outros ao mesmo tempo. Viveu tanto para as palavras, que já nem se recorda a última vez que saiu de casa. Ousou se levantar, mas quando estava quase no alto de sua vontade primeira, derrubou uma caixa de papelão. Cartas, postais e outros objetos do tempo caíram como se fossem neve. O chão ficou branco de envelopes. O chão ficou manchado de amor.

De imediato, lembrou-se de alguns versos imortais – só mesmo o maior dos poetas daria conta do que se passava naquele quarto frio absorvido pela noite que entrava também pelas frestas da janela.

Disse para si: – “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.” Fernando Pessoa, claro.

O gato pisou no botão do controle remoto e a televisão ligou exibindo respostas de perguntas não feitas. Não havia som algum, apenas imagens borradas. Decidiu colocar os óculos e, enfim, aconteceu alguma revelação. Na tela plana, poetas cujos poemas sempre lhe acompanharam. Muitos deles, inclusive, citados diversas vezes em suas cartas. Lá estavam o simbolista Cruz e Sousa, o sepulcral Augusto dos Anjos, a docemente amarga Cecília Meireles, o exaltado Casimiro de Abreu, a sofrida Florbela Espanca… mas a última imagem que ficou na tela lhe chamou ainda mais a atenção. Não era propriamente a de um poeta, mas sim de um sonhador. O sonhador caminhava pela rua e tinha um rosto familiar, um andar cadenciado e um chapéu marrom.

Agora, ele próprio estava caminhando pela rua, com seu andar cadenciado e seu chapéu marrom. A noite quer se dissipar, mas o Vento Sul não permite. Os relógios param porque não é preciso contar o tempo do que já se acabou.

Disse para si: – Detesto o inverno porque o meu nariz fica horrível. Deixo de sentir os cheiros das coisas. As narinas congeladas e doloridas. Hoje, porém, sinto outro aroma no ar. Estranho. Parece uma mistura de frutas com flores. Esses cheiros me proporcionam alguns pequenos momentos de felicidade fulminante que invade toda minh’alma. Às vezes, vai além d’alma. Vai além-mar, Alentejo. Deve ser a poesia que me faz companhia e me consome. Tenho a minha casa, o meu carro, os sapatos lustrados. Tenho tudo isso o ano inteiro, mas não me conheço. Nem sei quem sou em nenhuma estação.

No paraíso, não é mais noite. Só existe poesia e xampu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 15/08/2013.

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