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A Praça XV de Novembro estava vazia naquele 8 de agosto de 2013. Ou quase. Nenhuma vivalma nos arredores da centenária figueira, uma das mais antigas habitantes desta Ilha de diz-que-diz. Mas há vozes veladas no local (ou seriam veludosas vozes?):

– Ouviram os violões que choraram hoje de tarde? – perguntou o busto de Cruz e Sousa.

– Não ouvi nada, poeta – comentou o busto de Jerônimo Coelho. E completou: – Estava mais preocupado em escutar as últimas notícias da cidade, que anda pegando fogo. Mas só se fala em roubo, assalto e afins. Quando eu editava o jornal O Catharinense era diferente. A única coisa que queimava aqui era luz de pomboca.

– Concordo, prezado contemporâneo. Nosso cotidiano era uma pintura quando comparamos com os dias atuais – recordou o busto de Victor Meirelles. – Lembra quando apresentei para você meus primeiros desenhos repletos de paisagens da nossa Senhora do Desterro? Não teria jamais pintado A Primeira Missa no Brasil se não tivesse o coração tranquilo das memórias de minha infância.

– Tens razão, Victor. E você, Boiteux? O que pensa de tudo isso? – reforçou Coelho.

– Ora, ora. Somos apenas bustos de bronze numa metrópole metida no meio do mar. Tivemos todos nós um papel importante na história dessa urbe. Posso celebrar a criação da Faculdade de Direito de Santa Catarina, ou talvez vibrar com os versos do Cruz e Sousa, as pinceladas de Meirelles ou seus esforços para contribuir com a política brasileira, nobre Coelho. Mas somos tão fundamentais nesta Ilha quanto qualquer pessoa que por aqui já viveu ou passou – José Boiteux engoliu as lágrimas e finalizou: – De alguma maneira, todos contribuímos para o que há de melhor e de pior neste paraíso destruído.

– Percebo uma alva amargura em suas palavras, mas bem sei que um historiador sempre tem fundamentos para compreender que a marcha da humanidade percorre o caminho mais traiçoeiro. Esse trajeto é delineado por formas vagas, tinidas, cristalinas… mas todo o resto é claro como um verso reto ou uma rima branca. Mas como disse antes, hoje os violões choraram e percebo que outras lágrimas ainda serão derramadas mui brevemente.

Sempre atento aos movimentos da praça, Jerônimo Coelho exclamou: – Fiquem quietos, acho que vem chegando alguém da Catedral.

José Boiteux, nervoso, sussurrou: – Estou com um mau pressentimento. Creio que esta noite será a última na qual compartilharemos ao redor deste Monumento em Honra aos Heróis Mortos na Guerra do Paraguai.

Pouco tempo depois, os quatro bustos de bronze entraram numa fria quando foram roubados, o que encerrou definitivamente aquela última conversa.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/08/2013.

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