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Desejos são como pequenas armadilhas pré-programadas. Eles estão sempre por ali, nos arredores, como quem não quer nada, mas remoendo-se de uma vontade quase incontida. Antes de começar esta crônica, um desejo que apareceu de repente foi o de Sonho – aquele de comer.

Lá em Portugal, onde os nomes das coisas sempre parecem mais divertidos, o Sonho é chamado de Bola de Berlim (Berliner Ballen, do original alemão). Desculpem-me os lusitanos, mas dessa vez a nomenclatura gastronômica brasileira deu uma bola dentro e trocou a cidade germânica por uma área que Freud utilizava como ferramenta de trabalho e, por vezes, como um brinquedo no parque de diversão.

O Sonho não é apenas um bolo de padaria trivial. É também uma angústia. Pedir um Sonho para levar (e não o comer na hora) é cometer o crime do século aos poucos. Imagine lá o ladrão após roubar os milhões de um banco que, ao chegar em casa, a esposa lhe diz: – Agora guarde tudo no colchão, pois só vamos usar o dinheiro quando as crianças tiverem idade para ir à faculdade. E o marido-ladrão obedece, com a baba escorrendo no canto da boca. Embrulhar o Sonho também é um sinal de autocontrole. Aquele que não sucumbe à sua deliciosa aparência merece uma saudação budista pela determinação.

De fato, o que impressiona no Sonho é, justamente, sua apresentação, antecipando, ainda que sem saber, muitos dos truques mentais utilizados atualmente pelos marqueteiros. O tamanho pode variar bastante, mas é fundamental não cair no golpe dos minissonhos, quase nunca recheados. O Sonho padrão é esbelto, encorpado. O açúcar de sua superfície deve sempre lhe cercar qual uma camada protetora. E o que dizer do recheio? Ah, temos cá a arte que se completa nessa indispensável sensação que chamamos de prazer; comumente feito de creme ou de doce de leite, tão exibidos que constantemente caem para fora logo na primeira mordida. O recheio é o toque de mestre numa criação tão genial que não seria estranho encontrar algum esboço deste doce nos desenhos de Leonardo da Vinci – afinal, para quem previu o helicóptero com séculos de antecedência, imaginar o Sonho seria um mero exercício culinário.

Que mistérios há nesta massa que traz de farinha de trigo, gemas de ovos, açúcar, fermento, óleo, água e uma pitada de sal? Quais segredos residem neste recheio feito de maizena, açúcar, gemas de ovos, margarina, água, suco de limão e sal? Difícil elucidar estas indagações, e olha que esta é apenas uma receita possível. Mas os sonhos, como Freud provou, não se explicam… e alguns até são muito saborosos.

Agora que a armadilha do desejo me pegou, peço licença, pois é hora de sonhar.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/09/2013.

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