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O Relato de um náufrago, livro de Gabriel García Márquez, conta a história de Luis Alejandro Velasco, um marinheiro que passou por maus bocados a deriva numa balsa sem água potável e sem comida por dez dias. Quando finalmente chegara em terra firma, fora encontrado por moradores de Urabá, na Colômbia. Velasco então despontou como um herói nacional, pois, além dele, mais oito tripulantes caíram no mar e nunca mais foram encontrados. As informações dadas pelo governo da Colômbia davam conta que havia ocorrido uma tempestade e, na confusão, algumas pessoas acabaram no mar, mas o navio em que estavam, o A. R. C. Caldas, seguira sua rota de Mobile, Alabama (EUA), para Cartagena, na Colômbia. Entretanto, a verdade dos fatos não era tão simples como aparentava. Inoportunamente, o Caldas transportava contrabando e a negligência da tripulação com o excesso de peso lançou ao mar os tripulantes bem como as mercadorias ilegais.

Essas revelações da reportagem feita por Márquez, com base no que lhe contou Luis Alejandro, foram publicadas no jornal de circulação nacional chamado El Espectador em 14 dias consecutivos. O fato causou um alvoroço em todo o país, pois se tratava de uma clara denúncia política. Afinal, um navio do governo trazia contrabando dos Estados Unidos! O resultado foi que Gabriel García Márquez teve de se exilar, Luis Alejandro Velasco ficou abandonado e esquecido pelo governo e o jornal El Espectador fechou as suas portas.

A história por si só já era surpreendente. Havia a comovente superação do homem perdido e sozinho com a natureza, sem deixar de lado o aspecto político que, apesar de não ser explicito como denúncia, teve uma repercussão de igual nível. Porém, Márquez transformou o texto em algo vivo, como se cada dia vencido pelo náufrago fosse único e tão surpreendente quanto o anterior. O autor conseguiu captar as nuances deste exercício de sobrevivência, os pequenos fragmentos narrados pelo náufrago que lhe forneceram um robusto material para compor um texto de dupla-autoria, escrito em primeira pessoa. Este é, pois, o elemento que mais chama atenção quando da leitura da reportagem: a única fonte do escritor/jornalista é o próprio náufrago, ou seja, tudo o que aconteceu naqueles dez dias à deriva deve ser creditado às palavras de Velasco.

Por se utilizar do Jornalismo Literário para escrever Relato de um náufrago, o autor colombiano acertou em cheio o coração e a mente do leitor – que é, afinal, a razão de ser do jornalismo impresso. Escrever com precisão e clareza para ser lido com entusiasmo: Eis o que conseguiu Gabriel García Márquez.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24/10/2013.

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