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Estivesse você na Europa nos idos da primeira década do século XX, teria a chance de conferir o talento da musicista brasileira Chiquinha Gonzaga, que por lá realizava uma série de apresentações. O comedido sucesso internacional da compositora, pianista e regente natural do Rio de Janeiro foi apenas um dos notáveis feitos desta que é considerada a primeira autora de música popular brasileira. Entretanto, sua consagrada carreira teve muitos desafios a serem vencidos, enfrentando a sociedade de então que não compreendia os direitos de uma mulher ser livre.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga também carrega consigo o mérito de ter composto “Ô Abre Alas”, de 1899, notadamente identificada como a primeira marcha carnavalesca com letra – a composição apareceria quase 100 anos depois no carnaval carioca, com a escola de samba Mangueira e o enredo de 1985 “Abram alas que eu quero passar”.

Além disso, Chiquinha foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. De tal modo, é sobremaneira justa a homenagem que instituiu em 2012 o Dia Nacional da Música Popular Brasileira a ser celebrado justamente dia de seu aniversário.

Precoce, já aos 11 anos de idade compôs sua primeira música, a natalina Canção dos Pastores. Ainda muito jovem, acompanhava com entusiasmo os ritmos de origem africana, principalmente aqueles originados nas rodas de escravos. Chiquinha, claro, seria uma das apoiadoras da abolição, promulgada em 1888.

Mas não foram necessariamente suas posições políticas que incomodaram a sociedade. Tendo casado aos 16 anos por imposição familiar, não aguentou os muitos anos de humilhação do marido e optou pelo desquite. Assim, estava criado o cenário para um escândalo na conservadora sociedade da época.

Mãe divorciada, criou um de seus três filhos (os outros dois ficaram com o ex-marido) trabalhando como pianista em lojas de instrumentos musicais e professora de piano. Em 1867, juntou-se com o engenheiro João Batista de Carvalho, sendo mãe novamente. Viveram muitos anos juntos, mas terminaram por se separar e, outra vez, Chiquinha perdeu a guarda de sua filha.

Após anos sozinha, iniciou um inesperado romance. Chiquinha tinha 52, e João Batista Fernandes Lage, o aprendiz de musical por quem se apaixonou, contava com somente 16 anos. Desta vez, para evitar o preconceito alheio em virtude da grande diferença de idade, Chiquinha fingiu adotá-lo qual um filho, chegando mesmo a viverem juntos por alguns anos em Lisboa. De volta ao Brasil, viveu ao lado de Lage até sua morte, em 1935.

Seus números impressionam ainda hoje: trabalhou com músicas para 77 peças teatrais, e aproximadamente duas mil composições entre choros, fados, tangos e outros gêneros. Chiquinha Gonzaga versus Sociedade: você tem dúvidas de quem venceu?

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 31/10/2013.

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