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Se cada louco tem a sua mania, o mesmo pode ser dito daqueles que se consideram sãos. São e salvo, encontro-me neste segundo grupo, tendo lá meus momentos poucos ciosos. Dentre as manias que adquiri com o tempo, a relevância crônica deste texto recai sobre uma expressão linguística contraída na época em que cursava a faculdade.

Foi naquela toca de acadêmicos que comecei a chamar de reuniões os encontros festivos, convescotes e similares boemias das quais participava. Reuniões de turma, por assim dizer. Mas não pensem vocês que uma reunião destas agrupa alunos discutindo os assuntos da próxima prova ou, vá lá algo maldoso!, caçoando de professores verborrágicos, ególatras e displicentes. Pelo contrário, mas quase na mesma linha pragmática, a turma em questão é aquela bem humorada coleção de amigos com sentimentos afins. Sentimentos para fins de encarar a vida, ressalta-mos, caso você tenha pensado em relações amorosas. Claro que, eventualmente, surgem aqueles casais formados por colegas de aula ou mesmo entre um aluno e uma ex-professora, sempre respeitando a ética e a lei (grife aqui com sua hidrocor amarela).

Digressões à parte, e em amarelo, a turma continuará a se encontrar mesmo após o fim da faculdade porque existem contratos sociais muito mais claros e significativos do que um resumo da obra de Jean-Jacques Rousseau, ainda que Rousseau tenha seu valor. Valor que não se paga é a essência de uma reunião de turma. Podem ser três ou quatro, podem ser 13 ou 24 membros. Cada turma tem uma organização particular, abalizada pelas reuniões anteriores e certificada em cartório pelo contrato dos encontros futuros.

O que nos motiva não é nada assim tão nobre a ponto de ser registrado nos anais da história. Tampouco consideramos nossas razões pueris, pois não há tempo perdido para aqueles que participam (grife aqui também, se sobrou tinta). No meu entendimento, o único elemento chave é a conversa. Retire a conversa da humanidade e você acabará em um milésimo de segundo com toda a evolução do conhecimento. Se a música estiver alta demais, grite. Se alguém estiver cochilando, dê-lhe um beliscão. Reuniões de turma não são sérias, mas têm de contar com um respeito incondicional pela conversa.

Tais fatos vão muito além do efeito linguístico proposto inicialmente. Porque também pesam as noções de compromisso que deveríamos aprender logo que balbuciamos as primeiras palavras. E a turma vai se reunir mais uma vez, nem que seja para sacanear o cronista doidivanas que, enfim, terá cumprido seu objetivo.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/11/2013.

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