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É sábado de manhã. Ele está dormindo em casa. Ela está na rua fazendo compras para o Natal, justamente porque é sábado de manhã. O telefone toca ao lado da cama.

– Alô…

– Que voz de sono é essa? Já passam das 10 horas.

– Já? Aqui está tudo escuro.

– Se abrir a cortina… o fato é que eu estou na rua desde cedo e ainda faltam metade dos presentes. Sem falar no Amigo Secreto que eles inventaram lá no teu serviço.

– Esses crápulas! Se eu soubesse que ia dar trabalho, nem tinha aceitado participar. Brincadeira, tinha sim. Afinal, foi ideia do chefe e eu estou precisando daquela promoção.

– Promoção tem aqui, mas é de outro tipo. E bem ruim, por sinal. Enfim, preciso saber o que comprar para os teus parentes.

– Já disse antes: Pode comprar qualquer coisa. Eu me responsabilizo pelas caras feias da minha família.

– Mas me ajuda.

– Está bem. Quem falta?

– Pela ordem: primeiro, a tua sobrinha.

– Ela é fácil. Pegue qualquer livro dessas histórias de bruxas para adolescentes.

– De bruxas? Não posso comprar também um livro com esse tema para a sua mãe?

– Engraçadinha. Próximo da lista.

– Teu irmão.

– Ah, ele é um pouco mais difícil. O cara coleciona todo tipo de coisa. Acho que ainda não ajudamos a completar a coleção de latinhas de cerveja importadas dele.

– Latinhas de cerveja? Não tem nada melhor?

– Melhor do que cerveja? É um presente tão bom que, se ele tiver repetida, poderá consumir do mesmo jeito.

– E falta também a tua mãe.

– Esse tem que ser um presente caprichado. E caro. Ano passado, acho que ela não curtiu muito a fruteira que eu escolhi. Poxa, olha que cabiam umas trinta laranjas. Até eu teria uma daquelas se gostasse de fruta. Ah, sei lá. Escolhe um vestido branco para ela passar o fim de ano. Só não compra nada muito quente, porque eu acho que ela está na menopausa e… você sabe.

– Não, eu não sei. Eu estou longe da menopausa e também muito longe de terminar essas compras de Natal. Aliás, se você já acordou, deveria vir aqui no Centro me ajudar. Estou cansada de carregar essas sacolas e não posso ficar indo e vindo do carro a todo instante.

– Está bem. Vou tomar banho. Onde é que tem toalha?

– No banheiro, lógico. E anda logo que meu braço está doendo.

Ele desligou o telefone, abriu a cortina e foi tomar banho. Chegou no Centro e, em dez minutos, terminou as compras ao lado da mulher. No dia seguinte, durante a entrega dos presentes, qual não foi a surpresa da mãe dele ao ganhar um livro de receitas escrito por uma bruxa.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/12/2013.

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