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O casal chega em casa na madrugada do dia 25. Horas antes, a revelação do amigo secreto. Ele pegara aquele tio… justamente o tio mais difícil de se presentear. Já passara uns maus bocados para escolher a lembrancinha do chefe, na festa da empresa. Mas ele precisava daquela promoção. Já na família, os transtornos eram outros. Em primeiro lugar, a festa aconteceria muito longe. Mais de uma hora e meia de distância, sem falar no trânsito da SC. O importante é que estavam de volta ao apartamento. Exaustos, mas satisfeitos.

 – Sua mãe gostou bastante do livro de receitas que eu escolhi, viu?, ela perguntou enquanto abria a garrafa de vinho.

– Vi. E, mesmo que o livro tenha sido escrito por uma bruxa, a mãe aceitou bem., ele comentou enquanto se jogava no sofá.

– É o espírito de Natal. As pessoas fazem coisas nessa época que não fariam em outra ocasião, mesmo que se envergonhem depois.

– Pode ser. Mas achei o pai meio cansado disso tudo. Quando a gente era criança, ele parecia curtir mais. Será que isso vai acontecer com a gente também?

– Quando ficarmos mais velhos?

– É.

– Talvez, talvez… mas acho que vai ser o contrário.

– Eu mais disposto e você de saco cheio?

– Mais ou menos. Está ficando difícil ano após ano. A sua família está envelhecendo. Tua sobrinha vai casar em breve. Não tem mais criança correndo pela casa.

– De novo este assunto? Achei que a gente tinha dado um tempo. Desencanado de tentar ter o nosso filho. Pelo menos, até as coisas melhorarem no trabalho.

– Eu não desisti. Sei que as coisas não são sempre do jeito que queremos, mas já estou na casa dos quarenta…

– Na casa ou no apartamento?

– Detesto quando você faz piada deste assunto.

– Desculpe. Não foi por querer. Eu estava prestando mais atenção à Missa do Galo do que na sua conversa.

– Ah, que bom. Isso melhora tudo.

– Já pedi desculpas.

– Que seja. Acho que vou deitar.

 – Mas…

Mas ela realmente estava chateada. Além do cansaço da noite, estes dias natalinos pesavam no pensamento. Filhos, quase sempre, completam uma família. Ele queria comprar um cachorro, mas ela sempre dizia que não seria a mesma coisa. E as dificuldades para engravidar eram dela mesma.

Ele foi dormir. Sussurrou no ouvido dela umas frases de amor. Tudo muito clichê, mas até que funcionou. Foi quase um milagre. O filho nasceu em 09 de setembro. E, desde então, 09/09 tornou-se o dia mais importante de suas vidas. Na festa de Natal do ano seguinte, o choro do membro mais novo daquela família foi o som mais bonito que todos ouviram.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 26/12/2013.

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