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Mas nem parecia outra coisa que não a sua própria vontade de ser feliz. Será que era isso mesmo? Bastava um pensamento positivo e toda sua existência culminaria numa explosão de alegria, como um sambinha bom do Cartola que a gente escuta enquanto ginga os quadris.

Era possível, sim. Ninguém nunca lhe dissera que a vida era um paraíso destruído como um livro do Frei Bartolomé de las Casas. E, se tivessem lhe contado esta história, não teria sentimentos tristes por um tempo e um trópico que já não lhe pertencem mais.

Estudava porque era uma intenção quase pura, uma aceitação de sua situação incompleta para com o mundo. Existia e isso, sim, era um dom, divino ou não. Com a imaginação, lançava-se para longe daqueles que lhe queriam mal ou que nunca compreenderam a beleza justamente como o contrário da vaidade. Belo, belo! Não precisava de um universo paralelo! O que mais lhe cativava estava ali mesmo, bem ao seu lado, como uma coleção de minutas auto-explicativas – lembram-se das explicações sorridentes de Carl Sagan sobre o Cosmos?

Sorria tão espontaneamente que aquilo se tornara um hábito, felizmente, automático, mas nada mecânico. Não gostava de robôs porque eles tinham qualquer coisa de escravos. E a liberdade ainda continuava a ser mais importante que a companhia de andróides andróginos sem coração. Amar era, é e sempre será uma estima superior, impossível de ser alcançada com cálculos matemáticos.

Enquanto amava, manifestava-se nas agitações populares. E ninguém era capaz de lhe prender. Tanta gente ao seu lado, tantos corações batendo numa sincronia acelerada. Tudo tão verde, tão festivo como o baile no “moulin de la galette”, igualzinho à famosa pintura do Renoir. Esse povo todo sabia que, em essência, nada é proibido.

Politicamente militava contra os partidos: só acreditava no que era inteiro. Integralmente dedicado às travessuras fantásticas, votava nulo porque sempre desconfiava daqueles que tinham certeza do que diziam. Era inventivo, criativo, receptivo e, mais do que tudo, vivo. Não queria perder nada ou ninguém. Entre cores, flores e outros sonhos contemporâneos, sentia-se imerso em doces dores e amigáveis amores.

Agora, chegara o momento de escrever sua própria minuta. Um legado definitivo sem mais delongas. Estava sem caneta à mão. Andou até encontrar uma casa lotérica e lá notou uma esferográfica pendurada num barbante. Sua chance, por fim, aparecera. Tirou o bloco de anotações do bolso. Fez alguns cálculos e chegou aos seis números necessários para realizar a aposta.

 > Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/01/2014.

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