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O apartamento fica numa das regiões mais nobre de Nova Iorque, com uma sacada quase dentro do Central Park. Neste janeiro, o inverno está especialmente frio, contrastando com as sufocantes temperaturas ao sul do equador, de onde veio há cinco anos o casal de brasileiros Laura e Fred. Enquanto ele está trabalhando com a calculadora ao lado, ela puxa o edredom para cima, cobrindo o pescoço já enrolado num cachecol.

Laura – Está frio. Eu quero o divórcio. Liga o aquecedor de ar no máximo que meus pés estão congelando.

Fred – Por quê?

Laura – Já disse. Está ficando frio, oras. Estamos em pleno inverno nova-iorquino.

Fred – Eu estou falando sobre o divórcio! Por que isso agora? Por acaso encontrou algum americano querendo conhecer um atalho para o Brasil?

Laura – Não adianta vir com suas piadas sem graça, Fred. Quando duas pessoas frequentam a mesma casa e nem mesmo dizem “bom dia” uma para a outra, então é um sinal de alerta. Nossa história já foi mais que um vaivém.

Fred – Não posso mudar o meu trabalho lá no escritório. Eu tenho de sair sempre muito cedo.

Laura – Sai cedo. Volta tarde. Trabalha no final de semana. Sua vida até parece a de um jornalista. E eu não planejava nada disso quando quis vir morar aqui em Nova Iorque com você, mesmo detestando o frio. Achei que seria uma espécie de segunda lua de mel, tendo Manhattan como cenário de fundo. Sua vida profissional até parece mais importante que qualquer outra coisa. Você é tão… tão calculista.

Fred – Eu sou tão somente um matemático tentando trabalhar.

Laura: Mas o mundo, pelo menos aquele mundo em que nos conhecemos, não é feito de números.

Fred – …

Laura – Esse teu silêncio só confirma o que eu disse. Ultimamente, parece que você não se importa com nada que faça parte da minha vida.

Fred – Isso não é verdade. Eu gosto de você, Laura. E sei que você sabe disso.

Laura – Gostar e amar são coisas bem diferentes.

Fred – Talvez seja apenas um problema de proporção: Gostar é querer bem. Amar é querer bem demais.

Laura – E lá vem você de novo com a sua matemática para justificar tudo. Mais e menos não explicam a nossa relação. Nesse momento, a única coisa que me interessa para mais é a temperatura.

Fred – Pelo que li, no Brasil o calor está cada vez mais insuportável.

Laura – Vou voltar para lá.

Fred – Já? Mas ainda nem calculamos nossas chances de fazer isso dar certo.

Laura – Fred, só quero que você calcule uma coisa para mim.

Fred – Pode dizer, Laura.

Laura – Veja quanto temos que economizar para comprar um aquecedor de ar novo.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/01/2014.

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