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– Mas que festa divertida!, ela exclamou assim que chegou no meio da multidão.

Personalidades, pseudo-artistas e outras figurinhas carimbadas da sociedade local estavam todas reunidas celebrando o aniversário da cidade.

– Que chatice!, ele disse para si não muito longe dela, só um pouco mais afastado da muvuca.

Como ninguém convidou o autor destas mal traçadas, escrevo o texto só pelo que ouvi dizer, e deduzo que o convescote fora realizado durante o dia. Provavelmente, serviram muitas bebidas e algum prato quente, como feijoada, churrasco ou talvez uma porção de caldos dos mais variados gostos. Enfim, os corpos malhados fugiram à rígida dieta para a satisfação do paladar. E foi pelo sabor que os dois se encontraram.

– Por gentileza, você poderia me passar o sal?, ela perguntou com uma elegância rara nesses eventos.

– Por certo que sim!, balbuciou ainda espantado com a delicadeza dela.

– Comprei a entrada hoje de manhã, comentou a jovem como que para puxar assunto.

– Eu também vim meio que por acaso. Alguém do escritório tinha um convite sobrando, e cá estou eu.

– Então seus amigos estão aqui?

– Por aí. Vi um ou outro, mas está tudo muito cheio. Ainda não falei com ninguém.

– Parece que você não está se divertindo nesta festa! Eu não conheço ninguém e estou achando tudo isso o máximo.

– É o aniversário da cidade…

– É o meu aniversário!

Ele não sossegou até que conseguiu roubar uma das velas do bolo que seria servido logo mais. Convidou-a para um local com menos vento, pediu um isqueiro emprestado e acendeu a vela, recomendando que ela fizesse um pedido antes de assoprar.

Pedido feito. Vela apagada. Desejo realizado.

O dia amanheceu pela segunda vez. Ele acordou com uma estranha vontade de ir à festa de aniversário da cidade. Tomou banho, vestiu a camiseta-ingresso e logo estava pulando ao lado dos colegas de trabalho enquanto o músico convidava todo mundo para pular junto no meio da multidão.

Próximo a ele, uma garota dançava porque dançar parecia ser a última coisa a fazer num universo prestes a desaparecer. Ela olhou para ele e gritou:

– Que festa divertida!

– Também acho. Sabe, eu pensei que, com tantos problemas que existem nessa nossa cidade, ninguém teria motivo para comemorar. Mas a gente sempre encontra um motivo quando pensa uma segunda vez.

– Que bom que você veio! Sabia que hoje é o meu…

– Aniversário?

– Sim.

– Sabia. E sei que você gosta da comida com bastante sal.

Os dois continuaram a dançar. E na hora de cantar os parabéns à cidade, ninguém percebeu que faltava uma vela no bolo.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/03/2014.

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