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Como quem não quer nada, a espécie humana surgiu na Terra e logo quis tudo. Ligeiramente mais esperta que as outras formas de vida, espalhou-se pelos quatros cantos de um mundo oval e, algum tempo depois, viu que a vida poderia ser divertida. Assim, trocou a sobrevivência pelo poder e a espontaneidade pelas leis.

Neste percurso, com alguma disciplina e muito tumulto, os processos de colonização espalharam povos, genes e tradições numa paisagem que parecia não ter fim. Mas os satélites ligaram os pontos mais distantes, o mundo encolheu e muita gente ficou de fora na hora de repartir o bolo. Por isso, olhamos tanto para o espaço, buscando algum paraíso intocado nesta ou noutras galáxias.

Ainda não conseguimos realizar a reforma agrária, mas já encontramos um porto quase seguro a apenas 500 anos luz de distância. O planeta Kepler-186f orbita uma estrela parecida com o nosso sol, numa zona suficientemente propícia para o acúmulo de água. Como a água é a origem da vida, muita gente ficou de olho nesta notícia divulgada pela Nasa, a agência espacial dos EUA.

Mas a novidade cósmica que surge cercada de otimismo também nos faz olhar para o nosso quintal. Quando se descobre um novo terreno, as disputas pela sua posse logo começam. A empresa Lunar Embassy (Embaixada Lunar) vende já há algum tempo lotes na Lua – negócios cuja validade pode ser bastante questionável. O dono da Lunar Embassy também já vende terrenos em Marte e em um satélite de Júpiter. Não é de se duvidar que seus negócios logo sejam estendidos para o planeta recém descoberto. Ainda assim, outras questões podem aparecer com o tempo. Vejamos, por exemplo, a questão da vizinhança. Haverá no Kepler-186f uma separação entre judeus e palestinos? E os nativos de ex-repúblicas soviéticas terão se seguir as leis de seu próprio país ou respeitar os mandamentos da mãe Rússia, como acontece hoje na Crimeia?

A ambição humana parece mesmo não ter fim. Em Florianópolis, por exemplo, o Plano Diretor levou anos e anos para ser aprovado e, quando foi, ainda estava recheado de problemas. Mesmo assim, até mesmo o ilhéu pode ter se interessado pelo “achamento” desta Terra nova, parafraseando o texto do escrivão Pero Vaz de Caminha. Na história das colonizações, sempre aparecem episódios de homens e mulheres que buscaram longe de casa uma oportunidade para recomeçar. E, claro, essa história ainda está sendo escrita.

Se for habitável e não habitado, o planeta Kepler-186f pode ser uma ocasião adequada para escrever uma nova história, mas é preciso ter em mente que as chances de tudo dar errado são tão grandes quanto as outras.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 01/05/2014.

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