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Já começo com um aviso: Você pode ler esta crônica antes ou depois da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Este alerta é importante porque analisar um jogo apenas a partir do que acontece dentro dos gramados me parece ser um exercício de pouca eloquência, ainda mais quando nações estão representadas pelos onze jogadores titulares que formam o time.

Questões como “foi pênalti?”, “o juiz devia ter expulsado?” ou “a bola saiu ou não pela linha de fundo?”, quando respondidas, explicam apenas situações específicas que, claro, muitas vezes podem decidir uma partida. Mas o futebol e os outros esportes são, sobretudo, fenômenos sociais. Cada país, cada nação ou região dá a importância que acha condizente ao esporte. Quem não se lembra da Copa de 1994, que aconteceu nos Estados Unidos, na qual muitos norte-americanos sequer sabiam que o evento estava sendo realizado lá. Já na Europa, a onda é diferente. A competição que, em 2014, reúne 32 seleções participantes, é vista no Velho Continente com uma relevância equivalente àquela dos latinos. A própria FIFA, que organiza a Copa desde sua primeira edição, em 1930, é vista como uma entidade tipicamente europeia, mesmo que entre 1974 e 1998 tenha sido presidida pelo brasileiro João Havelange.

No Brasil, especificamente neste ano, a onda da Copa percorreu mares muito mais agitados do que os de costume. Desta vez, o país sedia o evento num clima de apreensão social. A frágil democracia ainda recente parece não ser suficiente para que a esperança por mais uma conquista esportiva seja compartilhada como em edições anteriores. Parece ser evidente que, desde 1994, o fato da eleição presidencial coincidir com a realização da Copa motiva uma série de questionamentos de ordem social. Muitos se lembram da velha política romana na qual se distribuía pão e circo ao povo para disfarçar os problemas do estado. E este parece ser um exercício quase ingênuo, mas sobremaneira importante de pensar a história.

O século XX foi a oportunidade ideal para o futebol assumir o lugar de esporte mais falado no mundo. As equipes que “lutam” umas com as outras são representações em carne e osso da competição entre grandes e pequenos. Qual no duelo entre Davi e Golias, muitas vezes os times com menos recursos econômicos da América Latina derrotaram as poderosas equipes europeias. E todos, naturalmente, torcem para o Davi.

A sociedade é um conjunto intrincado de ideias, opiniões e afins. E o futebol não é assim nada muito diferente. Torcer não é pecado nem solução: é apenas humano.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/06/2014.

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