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O ser humano é um sujeito difícil de entender; ao mesmo tempo em que sabe que a morte é uma certeza incontestável, sempre é pego de surpresa quando ela chega por perto. Quando minha namorada me avisou pelo telefone que o amigo, jornalista e escritor Mário Pereira já não estava mais entre nós, foi a minha vez de ser pego de surpresa, como certamente aconteceu com outros tantos admiradores deste mestre das palavras.

Como muitos outros, tive a oportunidade de conhecer o Mário na sala de aula. Um de meus irmãos também teve aula com o mestre, sendo da primeira turma do curso de jornalismo da Unisul, “Foi o Mário que formou a minha visão sobre ser jornalista”, disse. E eu completei: “A tua, a minha e a de quase todo mundo que estudou com ele”.

E como era fácil gostar das aulas (e das conversas) do Mário Pereira. Sua paixão pela profissão e pelas palavras cativava o mais indisposto aluno. Professor que era, fazia questão de dizer que aprendia tanto com os estudantes quanto era capaz de ensinar.

Na minha turma da faculdade, particularmente, suas aulas sempre acabavam com aplausos, e não era mero puxa-saquismo. Mário Pereira conseguia um difícil equilíbrio entre ser ídolo e também amigo. Quando fui entrevistar o também saudoso escritor Jair Francisco Hamms para um trabalho de conclusão de curso, o autor de “O Detetive de Florianópolis” me questionou: – É verdade que as aulas do Mário são verdadeiros shows? São. Eram.

Nascido em Porto Alegre, Mário adotara Santa Catarina para viver a muitas décadas. Mas o local em que se nasce ou que se vive pouco importa aos grandes mestres. Assim como Machado de Assis não é apenas um escritor carioca, mas sim, e principalmente, brasileiro, Mário Pereira não escrevia com rótulos geográficos sobre as costas. Suas influências/admirações iam de Hemingway a García Márquez, de Shakespeare a Raymond Chandler, de Flávio José Cardozo a William Faulkner. Ele era, por certo, um leitor voraz e apaixonado, além de um escritor dedicado.

Em suas entrevistas, o mestre Mário dizia que adorava colocar suas leituras em dia logo cedo, quase ao final da madrugada. Creio que esse era um momento feliz de seu cotidiano, com os seus cachorros e gatos a lhe fazer companhia enquanto tomava um café da manhã recheado de livros.

Como fazia parte da Academia Catarinense de Letras, Mário era um imortal. E, mesmo se não o fosse, seria eternizado pelas palavras que escreveu e, claro, pelos amigos que conquistou.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24/07/2014.

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