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O voto é uma ação duvidosa. Se por um lado parece justo, afinal é a maioria quem decide o resultado, por outro soa como uma mal humorada caminhada num sábado de manhã com chuva.

Não acredito que alguém possa definir com clareza a sua escolha política através de debates com perguntas figurativas, com entrevistas em programas de televisão que fazem jornalismo de empresa ou mesmo com o mal chamado “horário eleitoral gratuito”, no qual a concretude dá lugar à dramaticidade acusatória e à emoção defensiva.

A política representativa gira em torno de si mesma, porque tudo no mundo segue a principal invenção humana: a roda. De uma maneira tergiversante, tudo que está aí vem da roda – uma imitação lógica e mesmo trivial dos astros que guiaram nossos ancestrais, mostrando que sempre estamos no mesmo lugar. E giramos como tontos.

Mas viver em sociedade, apesar de tudo, é conviver com uma porção de coisas da qual não se gosta. É um mundo cheio de carnes para um vegetariano. É uma fascinação por regras que se deturpam para um anarquista. É um universo virtual para quem ainda prefere o toque da pele. É votar por obrigação.

Não votamos em candidatos, e tampouco nos partidos. Sequer votamos nas propostas. O que acontece na prática é um voto nas circunstâncias. Foi o voto das circunstâncias que elegeu um candidato sem vínculo partidário no primeiro pleito da redemocratização, que elegeu um intelectual a partir de um movimento econômico praticamente inadiável como foi o Plano Real, que elegeu um ex-metalúrgico porque era possível fazê-lo sem que fosse um risco social, que elegeu sua sucessora numa estrutura de governo que se mantêm a mesma desde 1990.

O ideal democrático de nosso país está muito mais forjado numa “democracia eleitoral” do que propriamente numa “democracia de governo”. E, no final das contas, a única democracia que interessa (a “democracia social”) foi deixada de lado, como que acumulando poeira desde que os militares governaram o Brasil pisando em ovos.

Assim, parece-me inevitável encarar a campanha eleitoral como uma sucessão de desacertos entre o que se faz e o que se projeta. Ou, em outras palavras, basicamente aquilo que é a comunicação (jornalismo, publicidade, markenting…) para as massas.

Para votar com alguma propriedade, pois, é necessário interagir com o mundo, conhecer a história que nos trouxe até aqui, conversar com amigos que nada ganham com a política, apreciar as obras de arte porque elas também mostram quem somos e o que nos tornamos. Fazer isso não é uma garantia de votar certo, mas uma possibilidade fazê-lo sem a arrogância de quem inventou a roda e ficou girando no mesmo lugar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/08/2014.

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