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Encarar as fronteiras como quem ri do vilão. Uma linha imaginária, quer ela ganhe a concretude de pedras ou fios, só faz atualizar um discurso que está mais vazio do que as praias de Florianópolis no inverno. Do Tratado de Tordesilhas à Faixa de Gaza, do Muro de Berlim à Coluna Prestes: delimitar é, também, aceitar que a derrota existe para os dois lados, como uma história eternamente incompleta ou uma geografia desnecessária.

Não há contexto melhor para uma experiência dramática do que essa ampla ausência de identidade que toma conta do que é contemporâneo. Dêem-me um martelo e um prego que moverei o mundo melhor do que o compadre Arquimedes. E, ao microfone, ouvimos em pleno Largo da Alfândega, no eixo central da Ilha, as sonoras marteladas que repetem incessantemente: Geografia Inutil… Geografia Inutil… Geografia Inutil… (sem o acento mesmo, porque talvez ele não tivesse qualquer utilidade).

Peça, intervenção teatral, show… não adiantar criar divisões porque as fronteiras já ficaram para trás no primeiro parágrafo desta crônica. Para o Erro Grupo não tem conserto musical. Ou tem? De um hit de Rita Pavone pulamos para os berros alucinados da banda The Doors. Geografia Inutil… ainda é uma colagem de caracteres facilmente reconhecíveis porque se permitem ao consumo. Cabem algumas certezas quando o imprevisto é a ordem. O roteiro é um guia, como o é um acorde para o músico. E as mensagens são todas aquelas transitórias. Parece haver coincidências demais: como não relacionar os morcegos de Batman e Drácula (nas performances de fôlego dos atores travestidos) ao voo multi-direcional das pombas tão comuns do Centro desta cidade-ilha.

Talvez os mais antiquados façam alguma cena quando enxergam atores de roupa íntima no seio da urbe. São uns tolos. Não existe nada mais respeitável do que as peças (íntimas ou não) do Erro. Respeito é, sobretudo, enxergar o outro, perceber suas intenções e, ainda assim, dizer – e cantar! – a que veio. Moradores de rua, transeuntes, críticos ocasionais, cronistas: um largo iguala quaisquer tipos de observadores, escondendo-os de si mesmos, transformando-os em co-autores.

Porque o verbo se fez carne, temos esta emoção à flor da pele de não buscar uma moral concreta – apesar desta existir, porque cada um vive como quer. Se não haverá clímax, igualmente as canções cessam sem ter por onde. Não há limites para a arte. Até os pombos sabem disso.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/09/2014.

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