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Chaves, o menino órfão que vive no barril, é um garoto sem ter por onde. Mas ele não é o único na vila que tem uma família incompleta.

Não é por acaso que todas as personagens principais do seriado mexicano Chaves não fazem parte daquele velho clichê da família nuclear, formada por uma mãe dedicada, um pai trabalhador e filhos sempre dispostos a ajudar. Nada disso. Dona Florinda vive só com o filho Quico. Seu Madruga também mora apenas com a filha Chiquinha. Seu Barriga, o proprietário da vila, na qual todos pagam aluguel, também cuida sozinho de seu filho Nhonho. E o Professor Girafales… bem, ele quer construir uma família, desde que Dona Florinda tome uma atitude um pouco mais eficaz do que apenas convidá-lo para tomar uma xícara de café.

Todas essas histórias, que trazem em si mesmas um tan¬ti¬nho de tristeza, acabam se completando numa espécie de família forjada pela própria vizinhança – daí talvez que uma amontoda vila seja muito mais relevante que um disperso bairro.

Também não é à toa que a série esteja em exibição há tantos anos e seja tão relevante em muitos países da América Latina. Falando espanhol ou português, as nações latinas acabam se encontrando nas mesmas condições sociais. A herança comum de Portugal e Espanha parece criar um sentimento que pode não ter nada a ver com a pátria-amada, porque a integração (de uma família, por exemplo) vai além de fronteiras e limites.

As famílias suburbanas do Brasil dividem as mesmas agruras para pagar o aluguel, como acontece com o Seu Madruga. Da mesma forma, reconhecemos a dificuldade de educar um filho único como Quico, que sempre procura exibir uma situação melhor do que a dos outros. E, claro, a ingenuidade de Chaves é uma recordação daquilo que enfrentamos quando somos/éramos crianças, tentando encontrar o nosso lugar no mundo, mesmo que seja dentro de um barril.

Roberto Gómez Bolaños, também conhecido como Chespirito, criou a série e deu vida à personagem-título numa tradição visual que remonta aos primeiros filmes de Charles Chaplin.  Não é difícil identificar características de Carlitos adaptadas a todas as personagens do seriado, como o jeitinho para driblar a lei, ironizar os donos do dinheiro e, claro, aproveitar a vida apesar das opiniões alheias.

O órfão Chaves acaba identificando na vizinhança a família que não pôde ter, numa rotina que lhe permite alguma felicidade além, é claro, de um bocado de confusão. Mas não é assim também que acontece com todos nós?

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 02/10/2014.

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