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Há muitos motivos para não votar neste ou naquele candidato no segundo turno das eleições presidenciais deste ano. No entanto, creio que há 1.000.000 de motivos para não termos escolhido o presidencialismo no lugar do parlamentarismo, quando do plebiscito em abril de 1993. Poderia não ser a solução do país, mas teria sido uma boa ocasião para sedimentar os valores partidários que se perderam quando surgiu a oportunidade de permanecer no poder. Creio que muito desse ódio, preconceito, arrogância e outras nefastas manifestações dentro e fora das redes sociais (virtuais ou não) deve-se à inconsequência de espúrias alianças partidárias que juntam adversários de outrora apenas para ganhar uma eleição.

Seria até demais exigir coerência dos candidatos quando a lei permite esse troca-troca nas coligações, dando margem a um debate eleitoral no qual já não existem mais inocentes. Tirando um ou outro partido às margens das grandes estruturas, todos os que lá estão já tiveram a oportunidade de participar do poder de fato. E, claro, cada um investiu muito ali, menos acolá, mas quase nada fizeram para o crescimento da política em si.

Creio que pouco ou muito conhecimento político do eleitor já não é o suficiente para algum tipo de mudança mais substancial. A Constituição de 1988 foi ótima porque era necessária ao país. Mas algumas questões, principalmente às relativas aos sistemas político e judiciário, requerem urgentes revisitações. Não é preciso perder liberdades para aprimorarmos a lei. Muitos não o fazem mais por medo de perder regalias que só beneficiam uns poucos do que por causar algum retrocesso nos direitos do cidadão.

Infelizmente, as grandes questões do país acabaram por se tornar um embate polarizado, como alguns vêm comentando, entre o esgotamento e a ineficiência. E é por aí que se encaixam os dilemas-temas “reeleição”, “financiamento público de campanha”, “verticalização”, entre outros. É um tanto quanto óbvio que, ao pensar em seus interesses, os partidos acabarão dando um jeitinho, independente dos caminhos que temas assim percorram. É esta a ilusão de uma caminhada progressista, mas que atua apenas como contenção social.

É fato que a inclusão social dos desfavorecidos é boa e necessária; é fato que uma democracia precisa de uma economia forte e sem solavancos internos ou externos. No entanto, isso pouco explica a fragilidade de nossas representações (não confundam com as instituições que vão bem, obrigado).

Porque a eleição acontece na primavera, o que desabrocha é sempre a Rosa de Hiroshima, aquela mesma hereditária, estúpida e inválida.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/10/2014.

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