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A maneira que utilizamos para contar o tempo é bastante divertida. Criamos algumas regras básicas, como a noção de um fluxo contínuo, e seguimos sempre em frente. Mas parece que algumas ilusões nos acompanham em maior ou menor grau, dependendo do momento em que se vive.

Das dúvidas ilusórias mais contemporâneas, um destaque vai para o jeito de ser adulto. E o que viria a ser isso? É quando o sino da escola deixa de bater que a vida adulta chega? Ou é quando o trabalho assume mais tempo que o lazer?

Por um outro lado, se acreditamos que nunca seremos seres totalmente completos, então podemos afirmar que nascemos prontos para encarar isso tudo que está aí. Vamos aprendendo uma coisa ou outra pelo caminho, é fato, mas talvez a genética seja uma vilã muito mais eficiente do que o cotidiano. Nesse caminho, a condição social de cada um exaltaria, refrataria ou esconderia algumas características essenciais dos seres humanos. Dessa confusão toda vem a necessidade pela vida em grupo (cada vez mais individualizada, saliente-se). Amar ao próximo diz muito sobre si.

É cada vez mais atual entender as crianças como os primeiros cidadãos. Àquelas são exigidas as adaptações iniciais. É muito mais provável que o primeiro fulano com aspectos humanoides tenha sido uma criança e não um adulto – pelo menos se você acredita que o ovo veio antes da galinha. De todo o modo, esse infante ancestral da aurora humana não carregava as mesmas dores de hoje, porque, talvez, o tempo não lhe fosse mais importante que uma boa fogueira.

Cá entre nós, olhar para o passado é sempre muito mais interessante do que olhar para frente. Acreditamos ter o controle daquilo que não poderá mais sofrer alterações e, por vezes, ficamos muito satisfeitos com tudo o que conseguimos compreender. Enquanto isso, olhar adiante é lidar com o inesperado. Não adianta planejar a construção de sua nova casa se, não mais que de repente, um buraco negro sugar a Via Láctea, na qual o terreno que você comprou com o financiamento está incluído. O passado é seguro; o futuro pode ser um buraco negro.

Com 33 anos recentes, escrevo este texto não muito diferente do menino que nunca aprendeu a soltar pipa ou a andar de skate. Conquistei, claro, muitas outras pequenas grandes coisas e, felizmente, pude conviver (e ainda convivo) com pessoas das mais interessantes – o que ajudou a compensar as frustrações da pipa e do skate. O tempo passou e me tirou pessoas que me fizeram ser o que sou. E aceitei essas perdas por falta de opção.

Olho mais uma vez para trás: vejo-me ainda um menino, com medo de que a Via Láctea seja apenas outra ilusão.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 13/11/2014.

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