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Numa terra onde o chão é vermelho, brotou uma flor com o cheiro da noite. Uma princesa em perigo corria pelas proximidades e ouviu o desabrochar noturno. O sangue gelou, o coração acelerou, enquanto a fera se aproximava. Era não mais que uma besta de um tempo em que o tempo era frouxo. A flor, copiosa de si mesma, expeliu um perfume como nariz algum conhecera. E a fera ignóbil não teve outra opção: adormeceu embriagada de sensações. Naquela noite, o criador do universo sorriu com satisfação de sobra.

O tempo entrou na história e os dias só começaram a fazer sentido com o relógio de pulso. Aquela flor de outrora expandiu seus domínios para além do pequeno jardim vermelho. O choque de nuvens, de raios, de ondas e do passado com o futuro transformaram aquela entidade natural numa Ilha sem precedentes. A maldade dos que andavam sobre os dois pés e veneravam deuses incompreensíveis estava fechada para balanço.

Com o romance à disposição, portais de galhos compridos e cheios de espinhos eram usados com frequência. Os frutos caíam indicando o caminho. Dois seres com o paladar um pouco mais refinado que os demais escolheram frutas douradas que estavam perto do mar. Aquele que comandava o oceano do meio alertou que as outras espécies deixassem os dois seres em paz. A brisa cantou um verso que apenas os iniciados poderiam compreender.

Quando comeram o alimento reluzente, perceberam que um portal se envergara na divisa da terra com a água. Deram-se as mãos e correram na direção daquela esfera sem início ou fim. Não estavam em lugar algum, mas viam tudo. Viajar naquela existência parecia um ato de suprema felicidade. E sentiram tanto prazer quanto lhes era possível. Se você tivesse visto aquele momento único da história de todas as coisas, teria dito: – Mas como foram abençoados!

O romance era possível.

Enganados pelo portal, avançaram no tempo. Foram inclinados a conhecer dramas que, até então, pareciam tramas de um universo distante e muito sem graça. Primeiro, foram ter com as leis. É claro que a decepção veio acompanhada de uma tempestade que quase devastou o litoral. E tudo ainda piorou quando apareceram as bobagens políticas e econômicas. Um arco-íris se partiu em milhares de fractais desbotados. Mas, por sorte, o sol apareceu novamente.

Agora, eles estavam na praia; os corpos vermelhos dos raios de sol. Marisa despertou primeiro e, na sequência, cutucou Armando com os pés. Ele soergueu o corpo ardente e ainda sentiu a aliança do casamento lhe apertar o dedo. Fazia 39 graus naquele fim de tarde. E aquele calor todo murchou uma flor com cheiro de noite.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/11/2014.

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