Tags

, , , , , , , ,


Existe uma tradição na historiografia de contar a história apenas através dos grandes fatos, principalmente aqueles relacionados aos governos que impõem suas leis, quase sempre achando que estão fazendo o melhor que podem.

Mais recentemente, porém, houve uma mudança na rotina dos historiadores. Com a coragem de quem não está satisfeito com as tradições, muitos partiram para pesquisas de campo que, entre outras atribuições, colocaram a história do cotidiano como ponto de partida e não apenas de forma ilustrativa como acontecia até então. Assim, as memórias das pessoas comuns, longe dos gabinetes governamentais ou dos quartéis militares, tomaram corpo e ganharam seu lugar na história que, afinal de contas, sempre foi de todos.

Partindo desse princípio, podemos supor que a corrente tradicional não incluirá o ano de 2014 entre os melhores, seja para o país, seja para todo o planeta. Novamente, uma série de conflitos explodiu em várias partes do globo. O terrorismo também evocou o que há de pior no ser humano e muitas vidas foram ceifadas, seja por motivos econômicos, políticos, religiosos… E a Terra, cada vez mais conectada pela tecnologia e pelas decisões compartilhadas entre as nações, ainda não aprendeu que o único mundo possível é aquele no qual o princípio da igualdade está diretamente ligado ao respeito pelas diferenças.

Não de outro modo, pois, os historiadores do cotidiano usarão esses feitos que afetam a vida de bilhões de pessoas em todo o globo como um conteúdo complementar à vida que acontece a todo instante, incluindo agora, enquanto você está lendo a crônica.

Nessas histórias de gente comum, certamente haverá espaço para as boas recordações. Mesmo que sua empresa não tenha obtido o lucro esperado por causa das apreensões do mercado, mesmo que a sua saúde esteja um pouco prejudicada pelo descaso nos hospitais e postos de saúde, mesmo que tenha sido praticamente um desafio diário controlar o salário para que durasse o mês inteiro, mesmo com tudo isso, certamente, você também viveu oportunidades que valeram à pena.

Quase sempre, olhamos para o passado com um misto de felicidade e tristeza. Algumas pessoas chamam isso de nostalgia, outros de melancolia. Já na língua portuguesa há uma palavra exclusiva para tal sensação: saudade. Saudade: esta é a palavra que a história sempre deixou de lado. E, passado algum tempo, a saudade chegará trazendo à tona dias corriqueiros e desafiadores, como estes que você viveu em 2014.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 08/01/2015.

Anúncios