Tags

, , , ,


Na repercussão destes atentados à revista francesa Charlie Hebdo, mais uma vez é a miséria do pensamento humano que se sobressai – aquela pior parte da personalidade de Brás Cubas, sintetizada num emplastro sem função.

É lamentável ver uma tradição julgando outra, uma visão reduzida de mundo criticando outra minúscula forma de perceber outrem, o Ocidente punindo o Oriente (e vice-versa).
Os dias são perigosos porque muitos só enxergam dois caminhos ásperos: o do sim violento e o do não violento. Mesmo na defesa da liberdade, vão às últimas consequências no caminho da censura. E as diferenças, comuns a todos, afastam-nos ainda mais. Uma lição que a humanidade, ao que parece, ainda não está disposta a aprender.

O que se compra com esse ódio incontido, essa raiva fora de hora, esse tumor de expiação pessoal é tão somente um elogio à tristeza. Não há lugar para a felicidade em corações que não compreendem este segredinho universal chamado existência. Se desrepeitamos o princípio mais universal que o próprio universo, de que adiantarão as conquistas, o poder e a glória? Os descrentes não vivem: encenam para nunca mais.

Uns culpam a religião, mas não a compreendem como o que ela realmente tem de ser: a ligação com o desconhecido ancestral, o que dá sentido às coisas sem sentido, a possibilidade de um encontro com a própria espécie na preservação e no entendimento, nunca na sua aniquilação.

Muitos dos grandes gênios da arte foram religiosos, e isto está impregnado em suas obras que, não por acaso, falam de temas que ultrapassam o discurso “oficial” das religiões. Quem vai além no pensamento pode mudar o mundo. Quem vai além na ignorância carrega armas e invade a redação de uma revista. O que sai ferida não é a liberdade de expressão, mas tão somente a liberdade não segmentada. Afinal, esta é a bandeira-mor de uma utopia que se quer concreta, de um sonho que tem de assumir o aspecto de realidade.

Cada ato de ignorância que se transforma em evento global não é um recado daqueles que já perderam desde o momento em que puxaram o gatilho. Pelo contrário, é como uma balada triste que canta as possibilidades de um mundo sem fronteiras, cada vez mais disponível para unir lados opostos. Os muitos passos no caminho da unificação internacional não podem ruir com ameaças e atos impensados. O medo existe, mas não deve ser um agente regulador.

Apesar de parecer uma notória contradição, a divergência é o único caminho para o consenso. Fora disso, há guerras sem vencedores, há histórias inacabadas e há miséria no corpo e na mente.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 15/01/2015.

Anúncios