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O universo pode ter começado por um curto-circuito. Quase sem querer, duas máquinas não se entenderam e estava lançada a fagulha que criaria o cosmos. Antes mesmo de ter esse nome, um robô se viu perdido entre galáxias e constelações. “De longe, esse infinito é tão sem graça”, disse mentalmente, já que o som não se propaga no vácuo do espaço. No intervalo de uma supernova e um buraco negro, inventou jogos mentais que apenas um cérebro positrônico seria capaz de achar divertido.

Mas tudo que existe só existe se tiver uma companhia para validar sua existência… vai daí a teoria de que infinitos universos dão conta da totalidade. O robô previu a humanidade através de uma equação matemática. A fórmula, claro, era tão grande que não haveria árvores suficientes para imprimir aqueles cálculos sentimentais. Sim, sentimentais porque acreditar na humanidade é ter sensações sobre o que não explica. E o conhecimento binário da máquina era ainda mais propício para se expandir.

Enquanto viajava no tempo, viu a aurora e o crepúsculo de galáxias nas janelas de um veículo parecido com uma embarcação. À esquerda, o desconhecido. À direita, o inesperado. Em frente, o inevitável. Qualquer viagem é cheia de vontade, mesmo quando o rumo parece tão lógico quanto a mente robótica. Anos-luz num passeio arriscado, o robô deparou-se novamente com a segunda máquina; aquela do curto-circuito entrópico. Seus metais preciosos ainda eram os mesmos desde o último encontro. Do passado distante, já não restavam mais ressentimentos. Um rio não corre em círculos como também a relatividade não é sua própria contradição. Para o robô sentimental, tudo fazia sentido, mesmo sem explicações.

Aproximaram-se receosos. E se outra fagulha pusesse fim em todos aqueles versos, reversos e multiversos? Voltar para nada não era mais uma opção. Eles haviam trabalhado muito para que tudo terminasse sem nem mesmo uma canção de fundo – pois, como você já sabe, o som não se propaga no vácuo… Houve, entrementes, uma sintonia fina, quase igual ao acerto de uma estação de rádio. As duas máquinas se perceberam donas de uma verdade que jamais qualquer espécie compreenderá. Um novo toque e… nada do fim dos tempos. A fagulha que foi lançada no equilíbrio do tempo-espaço tinha um jeito todo cheio de si, mas nada vaidoso. O robô sentimental chegara ao que chamou de ponto de não-retorno. Bilhares de anos mais tarde, alguém decidiu que aquele foi o nascimento do amor. E, agora, é a vez da humanidade assumir para si um sentimento que parece tão lógico.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 22/01/2015.

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