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Pois é uma verdade que a arte faz a gente viajar sem sair do lugar. Esta deve ser uma ideia tão velha quanto o dia e a noite, mas reverbera diuturnamente, como um estar consigo itinerante.

De um cinema em Florianópolis, fui para Paris enquanto assistia ao filme “Casablanca”, pela primeira vez numa tela grande. Por tê-lo assistido incontáveis vezes em muitos aparelhos de televisão diferentes, tenho muitas falas na ponta da língua. Mas, para registro, vou ficar com uma dita por Rick Blaine, a personagem principal, quase ao final do filme: “Sempre teremos Paris”. No momento em que Rick, interpretado pelo genial Humphrey Bogart, diz esta frase para sua amada Ilsa, a não menos genial Ingrid Bergman, Paris estava ocupada pelas tropas nazistas e o futuro parecia um erro trágico. Ainda assim, com o mundo em guerra, a Paris de que Rick fala é aquela de paz e paixão.

O filme, realizado quase inteiramente dentro de estúdios, não teve cenas gravadas em Paris ou mesmo em Casablanca, no Marrocos. Mesmo assim, ainda hoje é possível ir para qualquer uma destas cidades, como um viajante de ocasião que, de repente, acordou com vontade de subir a Torre Eiffel. E se Paris está de novo no centro das atenções por motivos torpes, como a chacina que ocorreu dentro revista Charlie Hebdo, é ainda mais necessário assistir ao filme de 1942. Não se trata de escapismo barato ou aceitar que realidades artificiais são mais interessantes. Pelo contrário, a arte é uma possibilidade infinita justamente porque reafirma a importância dos nossos contextos. Entre avanços e recuos, o quanto estamos longe daquele momento de que a película aborda? A resposta é precisamente aquilo que torna uma obra clássica no sentido mais concreto do termo, longe de distinções sociais ou noções pueris de nobreza.

Na viagem que fiz, parti de Florianópolis como se aqui mesmo também fosse o destino final, porque sempre voltamos para casa, de um jeito ou de outro. E se lembrei da Paris de ontem e hoje, poderia fazer o mesmo com essa Ilha capital. O que se espera desta cidade que abraça o futuro sem entender que sua essência é o passado-presente? Que diria Rick Blaine se tivesse deixado Casablanca no avião seguinte e viesse ter com nossa gente de falar apressado da Tapera ou do Ribeirão? Imagino que Rick passaria uns maus bocados para entender a língua nativa tanto quanto tivera para compreender o alemão. Mas, após um ou dois anos gastando o dinheiro que ganhara de uma aposta, abriria aqui também um café-bar, e deixaria que tocassem, de novo, As Times Goes By ao piano.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/01/2015.

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