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Numa sala de aula, quatro poetas conversam com os alunos. Todos, estranhamente, são praticamente iguais. Não, não se tratavam de irmãos gêmeos, pois eram frutos espontâneos da criação artística. Mas lá estavam eles, com características quase que diametralmente opostas, todos trajando preto, usando óculos redondo e chapéu.
Uma aluna, por fim, deu início ao debate:
– Pelo sotaque de vocês, creio que sejam portugueses. Certo?
– Ora, pois… você está correta, rapariga arrebicada!, respondeu o que estava mais à porta.
– E o que pensa da nossa tríade modernista: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Oswald de Andrade?
– Causam-me certo desassossego. Mas não me tiram o sono.
Outro aluno dirigiu-se ao que se identificou como médico logo que viu um estudante dormindo numa carteira e foi se certificar de que o mesmo ainda respirava.
– E o doutor, gosta da modernidade?
– Não a desdenho, mas ainda prefiro a harmonia dos clássicos. Sabem, as línguas portuguesa e francesa possuem as palavras mais belas e as maiores riquezas dentre todas as outras mundanas. No caso do português (a língua e não o sujeito), penso que com seus meandros, nuanças e peculiaridades há algo grande e belo, fazendo-o único em si mesmo! Assim é com a língua e assim deve ser para com a poesia presente ou passada.
Já o terceiro poeta, que estava olhando o que parecia ser uma bola de cristal sobre a mesa do professor, manifestou-se sem que ninguém o intimasse, sempre com um ar meio místico:
– Vocês ficam aqui falando, mais uma vez, do tempo. De passado e do presente. Oras, eu não quero o presente. Quero a realidade e as cousas que existem, não o tempo que as mede. Isso tudo são esquemas feitos para tirar a atenção das pequenas cousas que se escondem dos olhos ingênuos. Vocês, jovens que cursam a academia, deviam ver as cousas, apenas vê-las; vê-las tanto até não pensar mais nisso.
Por fim, a mesma aluna da primeira pergunta, que foi chamada de rapariga arrebicada por um dos poetas, fez a pergunta definitiva ao único que ainda não se havia manifestado sobre quaisquer assuntos.
– Qual o sentido da poesia?
– Creio que essa é uma pergunta que deve ser feita para aqueles que são campeões em tudo. E não sou um deles. Tampouco conheci alguém que tivesse levado porrada numa boa. É para essa gente que você deve perguntar o sentido da poesia, da vida e de tudo o mais. Não para mim, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado.
Em seguida, Fernando Pessoa e seus heterônimos deixaram a sala sem se despedir. E a gargalhada tomou conta dos alunos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/03/2015.

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