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Das coisas humanas que não se explicam, o preconceito é, certamente, o grau mais baixo daquilo que se pode chamar de evolução. Preconceitos estão intimamente ligados às definições de minorias. Entretanto, estas definições partem de um pressuposto que a sociedade procura buscar semelhanças em tudo, como se gostar de verde fosse mais interessante do que apreciar o azul. E, assim, parece-me mais do que adequado utilizar o arco-íris como um símbolo de inclusão.

O preconceituoso é um sujeito tão triste que não se sente suficiente, partindo, então, para reprovar uma qualidade alheia. Aqueles que não têm nada com isso são sempre os mais interessados. É como aquele vizinho ou vizinha que fica de olho no horário que você chega de madrugada, mas está com o relacionamento familiar mais abalado que um arranha-céu após o terremoto. Quem não se enxerga quer, inevitavelmente, focar no outro.

A espécie humana possui um péssimo hábito de deixar fios soltos ao longo de sua história. Às vezes, nem percebemos, mas os encontros mal resolvidos estão por aí, como um ladrão barato que ronda a vizinhança em busca de uma porta aberta. Entre esbarrões e abraços, parece haver menos espaço para o perdão do que para a acusação. E testemunhas não faltam.

Ainda há muita gente pensando que falar dos preconceitos é tocar numa ferida que não cicatriza. E é mesmo. Mas é também o bálsamo definitivo que vai ajudar nesta cicatrização. Bons argumentos emergirão, mesmo nos tempos mais sombrios. Quando se desconstrói um discurso baseado em rancor e, evidentemente, na falta de conceitos, sobram-nos as demais cores que antes não eram visíveis para todos.

Um arco-íris traz consigo muito mais que possibilidades. Sua presença ondulada é um sinal do que se ganha, e não do que se vai. Como não tem linha de largada ou de chegada, ele está sempre à disposição de todos: não há escrituras registradas em cartório que dê para qualquer idiota o usofruto sobre as cores. E as aquarelas agradecem.

Aos que não enxergam o arco-íris, deixo esta crônica qual uma consulta grátis ao oftalmologista. Pode ser alguma pretensão do cronista mostrar o mundo para alguém, mas não é isso que todos nós temos feito desde que colocamos os pés pela primeira vez neste planeta? Quais motivos melhores poderemos encontrar que não sejam dividir e compartilhar? O preconceito é um soldado bobalhão que cumpre as ordens de seu capitão numa batalha que já começou perdida. Já é tempo de aceitar a derrota e admirar no horizonte o auge das cores.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/03/2015.

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