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A hierarquização é um processo antinatural. E, claro, antiartístico. Do que se perde daquilo que não se apreende, sobram-nos as saborosas migalhas do conhecimento. Esse pequeno deleite que se revela em cenas inventadas desde que o universo teve origem se vale da constituição histórica e corpórea das coisas, como nos fragmenta a intervenção urbana PORNOSUSPENSE, apresentada pelo Erro Grupo no Centro de Florianópolis.

É um drama histórico porque lida com as frágeis tristezas de sempre, existentes desde o Big Bang, passando pela Ditadura Militar e culminando num presente que eternamente coexiste, mas nunca acontece em sua plenitude. Assim, os desaparecidos do período ditatorial também estão em cena, colados como imagem projetada numa das paredes laterais do Teatro Álvaro de Carvalho. A morte ou o sumiço ou tudo isso e mais um pouco é uma ausência que não se perde nessa hierarquização histórica. O espectador olha para cima, forçando o pescoço como um incômodo igualitário, e lá estão mimetizadas as imagens da disciplina em interpretações da política vigente e na aceitação da Catedral Metropolitana como um ícone de fé. Abaixo, na pichação da parede, a palavra ARTE escrita, assim mesmo, com letras maiúsculas.

Entrementes, há uma erupção corpórea, pois que a ordem e o progresso se exibem numa bandeira brasileira que logo é ocupada por um corpo nu. O Erro, sempre a provocar qualquer coisa crônica e urbana, lembra-nos de que não há como se esconder. Daí o corpo já desnudo fica ainda mais descoberto por uma depilação pública. A cidade, mesmo protegida por prédios, paredes e postes, está sempre aberta ao tempo. Por mais alto que se queira chegar, o arranha-céu está longe de cumprir aquilo que se pretende, qual um corpo que jamais será objeto de si mesmo se assim não o quiser.

Quando o corpo depilado desce para encarar o público ou uma gestação precoce de uma transeunte disfarçada ou quiçá a questionadora aprendiz de uma língua estrangeira, a verdade se revela a mesma de antes: a cidade não precisa de muito para ser grande. Muros e calçadas são a própria essência da hierarquia que não diz a que veio, incomodando qual aquele pescoço levantado, ele mesmo uma erupção (ereção) corporal e histórica.

Ao enredarmos por uma tensão dramática que se entrecorta por semáforos, barulhos da urbe motorizada e mais elementos citadinos, enfrentamos a própria nudez social. Queremos, claro, um cobertor ou coisa que o valha para fingir que não somos atores da cidade. Mas somos. E é na cidade que qualquer relação humana se realiza de forma incompleta e maravilhosa.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/04/2015.

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