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Muito mais do que um estrangulamento físico, refletido nas vias entupidas de veículos, nos prédios que crescem sem uma gestação saudável e na carência cada vez maior de áreas ocupadas pela natureza, Florianópolis vive um estrangulamento político – e em seu pior momento, diga-se de passagem. A política aqui não entra apenas na questão partidária ou nas atuações dos governos municipais que se alternam sem alterar os paradigmas. O estrangulamento político pelo qual a cidade é sufocada tem muito mais a ver com a demanda equivocada dos mais diversos segmentos sociais.

Não obstante o fato da capital do estado ter se tornado um chamariz por suas belezas naturais, há aqui também um palco ideal para a criação de forças políticas vazias e, ainda assim, contraditórias. Esses rivais de fachada se alimentam mutuamente, girando uma roda que não sai do lugar, quais escravos de si mesmos. À direita ou à esquerda, as brasas dormidas não reacendem porque lhes faltam interesses comuns. Para essa gente preocupada demais consigo mesma, é necessário refutar tudo o que não lhe diz respeito, partindo para acusações mesmo que não existam testemunhas. Alguns, claro, costumam pedir que o Ministério Público investigue, como que lavando as mãos do processo.

Essas deficiências de entendimento imputaram à cidade uma condição peculiar de urgência e ausência do pensamento reflexivo. Esse drama já vem de muito tempo, mas começou a ficar mais evidenciado na época dos aterros da região central e da Beira Mar Norte. Para o aterro do Centro da Ilha, o arquiteto-paisagista Roberto Burle Marx pôde até ter desenvolvido um projeto impecável, mas a pergunta que ficou até hoje ainda não foi respondida: era preciso? O mau uso do aterro, que inclui estacionamento, um centro de convenções tão elaborado quanto um caixote de madeira e uma usina de tratamento de esgoto que recebia os recém-chegados à Ilha com um desagradável fedor de excreções, é o exemplo perfeito dessa incompetência para conceber a cidade a longo prazo.

As demandas, então, efervescem como comprimido no copo d’água, sendo engolidas tão rapidamente quanto surgem: os movimentos sociais pelo passe livre e contra o aumento da tarifa, as greves dos motoristas de ônibus, as manifestações contra obras que interferem no meio ambiente… e outros tantos pleitos factuais ou sazonais não criam vínculo porque o estrangulamento é anterior a tudo isso. Vale destacar que essas reivindicações populares são legítimas bem como necessárias à democracia. Mas, sem o entendimento, o sufoco só tende a aumentar.

Vamos respirar enquanto ainda for possível.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/05/2015.

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