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Sempre que ela estava viajando, ele revirava uma velha maleta empoeirada. Ali dentro, recordações divididas em outras oportunidades. Lembranças de intimidades de quem já não têm mais nada em comum. Segredos daqueles que usam o egoísmo como desculpa de auto-suficiência.

Entre presentes amassados e escritos de ocasião, as saudades já não eram mais das pessoas em si, e sim do tempo propriamente dito. O passado, no entanto, não era motivo de vergonha. De modo algum poderia se entender que não daquele jeito. O que viveu para si e para outrem o trouxe até ali – um momento tão singular quanto os demais.

Em algumas cartas amarelas, reconhecia as pequenas variações de sua própria letra. Àquelas interpretações de sentimentos cabia todo o entendimento do mundo, mesmo que sua caligrafia não fosse igualmente retumbante. Lembrara-se de que numa ou noutra oportunidade escrevia com raiva, e trocava a esferográfica azul pela vermelha. Às vezes, era um ato inconsciente. Nem incolor, tampouco indolor. E o orgulho absorto se escarnava como a traça faz com o papel. Não por acaso, sua história estava repleta de furos e coisa e tal. Já não dava mais tempo para tampar tudo o que ficara descoberto.

Os desenhos que se rebelavam no fundo da maleta também traziam justificativas de sentido ambíguo. O amor era para si ou para zerar suas dívidas com o mundo? Havia verdade naquelas imitações baratas da natureza, mas nenhum girassol de tinta guache era equivalente às dores concretas. Borracha alguma faria o planeta girar ao contrário.

Segredos não passam de teoria equivocada. Para existir um segredo, são necessárias ao menos duas pessoas. E é aqui que a teoria vai pelo ralo, pois como é possível ocultar algo cuja origem é compartilhada? Uma conversa qualquer num ponto de ônibus ou uma simples troca de olhares no elevador são tão secretos quanto o passado ancestral. Aqueles primeiros seres humanos que nem mesmo sabiam o que era o tempo traziam consigo a gênese do mistério. E é por isso que até hoje não nos entendemos por completo.

Escutou o barulho da porta de casa se fechando. Ela chegara um dia antes! No escritório, amontoou os papéis de qualquer jeito e enfiou tudo na maleta. Subiu numa pequena escada e escondeu seu passado atrás dos livros mais altos da estante. E quando ela entrou no cômodo, ele comentou algo sobre a necessidade de tirar a poeira das coisas velhas. E ela concordou porque, em segredo, sabia que ele guardava uma velha maleta, mas nunca fizera questão de descobrir o que havia dentro.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/05/2015.

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