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Qual factóide de uma não-celebridade, estampo-me apenas em um jornal imaginário com a seguinte afirmação: sou um entusiasta das cidades. Que não me entendam mal campos e serras, pois que toda divergência sentimental tem sua razão (e emoção) de ser. Mas trago comigo aquela “ânsia humana de ser rio ou cais!” da qual falara Álvaro de Campos, porque a cidade permite ser os dois e ainda um pouco mais.

Não posso negar que me prendo naquele quê a mais oferecido como uma herança trágica das cidades. Crê-me quando faço da manchete um apelo à selva de pedra: nunca trocar uma árvore pelo concreto, mas respeitar a natureza de ambos. Em nível molecular, tudo que aí está é resultado da criação: o deus ou o universo ou o homem só fazem aprender, criar e a se repetir. Talvez seja impossível afirmar em qual versão do universo nos encontramos. No entanto, seria pouco sábio não arriscar que em todas as versões anteriores existiram as cidades. E isto é o mais próximo de uma realidade concreta que podemos chegar. Cada espaço livre ou ocupado é uma oportunidade perdida e consentida porque já deixamos a inocência para trás na segunda ou na terceira versão. Mas podemos conviver com esse fardo.

Se a natureza inexplorada foi o berço de todos nós, parece-me coerente enxergar as cidades como uma extensão da existência humana. A interação entre mulheres, homens e as cidades é a consequência direta dessa busca por sentido que carregamos desde que a lua, as estrelas e o sol deixaram de ser meros pontos brilhantes no céu. Por suas características acolhedoras, mesmo que sob viadutos ou marquises imundas, os lugares da urbe ultrapassam os mais elaborados simbolismos. O revelar-se e o esconder-se podem soar cronicamente repetitivos, mas encaixam-se como uma engrenagem indispensável nessa gigantesca máquina feita de gente e de suas obras.

Num rápido passeio pela cidade, o jornal fictício já está distribuído em todas as bancas. E não vende muito porque a vida é assim mesmo. O tempo na cidade é um bem tão precioso que está sempre em falta – até mesmo no comércio. Não há mais pausas para folhear os tablóides; ainda mais para notícias velhas de quem não aparece nos circuitos de fofoca ou dá tapinha nas costas das autoridades. A cidade pode te tornar herói, vilão ou anfitrião deste embate, mas na maioria das vezes isso pouco lhe importará.

As cidades são repletas de vontades; minhas, suas ou de quem apenas está atravessando para encurtar o caminho. Rio ou cais: mesmo diferentes, aqui somos iguais. Eis a manchete de amanhã.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/05/2015.

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