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Quem dera esquecer de tudo, pensou o jornalista enquanto arrumava as notas de dinheiro dentro da carteira. Diferente daqueles que colocavam as cédulas de menor valor à frente das demais, sua maneira era ligeiramente singular: à vista imediata ficavam as mais desgastadas e, na sequência, aparecia um dinheiro cada vez mais limpo e pouco usado. Era seu modo peculiar de não manter o passado consigo por tempo demasiado.

No outro lado do supermercado, a historiadora não se definia sobre o bolo. Aquele com cobertura de morango e bolacha estava mais atraente. No entanto, também havia um de brigadeiro que fizera sua cabeça chocólatra. Sorriu para si quando lembrou de seu marido citando Shakespeare na primeira vez em que ela se mostrou indecisa. “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar”, da peça Medida por Medida (1604-1605). Mas era tão somente um bolo. Farinha, açúcar e algumas coisas a mais. Shakespeare não tinha nada com isso.

Notas arrumadas, tudo ok. O jornalista guardou a carteira no bolso e voltou a olhar as bebidas. “Qual delas tem maior teor alcoólico?”, indagou-se mentalmente. Vermute? Vinho? Vodka? Viu que seguir a ordem alfabética das garrafas não o levaria a lugar algum e foi ter com a funcionária do setor:

– Qual a melhor para esquecer?, perguntou.

– Desculpe-me. Acho que não entendi sua dúvida.

Ele também se lembrou da frase shakespeareana, mas concentrou-se no seu assunto pessoal.

– Eu gostaria de saber qual destas bebidas me faria esquecer mais rapidamente das coisas. Como se depois de um porre eu não lembrasse nem mesmo mais minha profissão.

A atendente não sabia se ele estava brincando ou não, mas por via das dúvidas disse que chamaria a gerente do setor e tratou de sair dali o mais rápido que pôde.

Já a historiadora estava animada com a escolha: uma torta de frutas secas. Era o presente ideal para celebrar um mês de casados. A cada dia, a vida era uma surpresa indecifrável. Mesmo que os tempos de crise insistissem em se fazer bradar, seu grito de felicidade era ainda mais forte. O marido a chamava de “adorável hedonista”. E ela ria porque aquela piada trazia um gosto de nostalgia misturada com bolo de maçã.

Na fila do caixa, o jornalista e a historiadora se encontraram. Ele trazia o carro repleto de bebidas. Ela carregava uma sacola reutilizável com a torta e um livro de bolso do Shakespeare que estava em promoção. Olharam-se e se reconheceram: foram namorados na juventude, mas não se viam há décadas. Ficaram indecisos, hoje como antes, sem saber se um cumprimento era adequado… mas o tempo passou e a caixa do supermercado gritou:

– Próximo!

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 28/05/2015.

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