Tags

, , , ,


Talvez essa história devesse ser ambientada num mundo encantado, quando a monarquia ainda tinha sua razão de existir. Mas não. Fiquemos nós com a nossa velha e maltratada democracia representativa. Afinal, de que servem os dias se não para gastá-los?

No início, havia trevas, gente gritando de dor e um vendedor de seguros pensando no futuro. Depois, apareceu o voto e o veto – os gregos, que não deixavam mulheres participar das decisões e ainda mantinham escravos, sabem bem do que eu estou falando. Só muito mais tarde surgiu a figura do mentiroso honrado, que vai tão bem nos discursos, debates e inaugurações, mas possui a decência de um anjo caído.

Neste momento, o anjo caído acabou de se estatelar no chão. Enquanto contava o dinheiro, não percebeu que os postes tendem a ficar parados e beijou o concreto de alto a baixo. Um popular, incauto e com os bolsos rasgados, veio lhe auxiliar.

– Deus sempre tem um plano para a nós, não é mesmo?, questionou o popular como se a única resposta do universo fosse um “sim”.

– Sim, disse o anjo caído, enquanto guardava o dinheiro no bolso esquerdo do paletó.

– Estou reconhecendo o senhor… vi-o em um programa de televisão anos atrás. Sabe, acho o aparelho de tevê uma das grandes invenções de todos os tempos. A gente conhece qualquer um olhando por aquela tela. Pode ser até mesmo em preto e branco: não há como fugir da verdade dos olhos. Logo que te vi naquele programa, pensei em quanto tempo o senhor levava para arrumar o cabelo. E fiquei cá imaginando se aquela produção toda valeria à pena. – e, apontando para o bolso do paletó do anjo caído, completou – E está claro que valeu.

– Olha, obrigado pela ajuda, mas eu tenho mesmo de seguir em frente. Tenho negócios terrenos, ou melhor, negócios de terrenos para resolver antes de voltar ao meu lugar de origem. Creio que seja tudo muito estranho para qualquer um entender, mas minhas atribuições não são nada tranquilas.

– Absolutamente. Eu entendo tudo porque, assim como o senhor, já estive do outro lado. Sim, sim. Também sou um anjo que se entediou com a perfeição e deu de cara com o mundo. Literalmente, do mesmo jeito que o senhor fez com o poste. E adianto que não sou do tipo “caído”, como o senhor. Não, não. Meu tombo foi uma legítima vontade de experimentar a trivial realidade. Sentir as coisas tão fulgurantes com um beijo à francesa ou andar de escada rolante. Foi por tudo isso que eu decidi estar aqui. Hoje, como antes, tenho a escolha ao meu lado.

Abismado, o anjo caído fez sua última pergunta:

– Isso que dizer que você não votou em mim na última eleição?

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 04/06/2015.

Anúncios